
I ATO
Lembro bem de como tudo começou, tinha se passado pouco mais de um mês de ligações para a loja e eu já não aguentava mais de ansiedade pela entrega da lente 55-200mm que eu havia comprado para a minha D40, e então ela chegou naquele mesmo Domingo em que eu iria tirar “algumas fotos” da apresentação de ballet da academia Corpus Dance, que minha irmã dirigia, na cidade de Poá, e que estaria se apresentando em uma competição de ballet em Suzano.
Eu começava a conhecer a fotografia e seus conceitos e não havia tido muitos eventos para fotografar. As referências ficavam por conta das fotos que eu via (até hoje, afinal esse é o principal fator de sucesso para um fotógrafo), principalmente de uma exposição com fotos das estrelas do Rock, clicadas por Bob Gruen – aquilo tinha sido uma overdose para mim e eu pensei “cara, eu quero fazer isso!”. Quanto ao meu relacionamento com o ballet, todo o contato que eu havia tido até aquele momento era acompanhar minha mãe, quando ela ia buscar a Tathy nas suas aulas de ballet.
"The Clash" © Bob Gruen
Lembro de ter sentido um certo tédio antes de chegar àquele ginásio e estava me preparando psicologicamente para enfrentar apresentações completamente amadoras, iguais àquelas que eram apresentadas no colégio, mas lá estava eu com a câmera na mão, ansioso para testar todos os meus novos 200mm. Na época, eu não tinha a menor noção dos elementos envolvidos, dos passos, e muito menos das técnicas para se fotografar o ballet: a única referência que eu tinha era o que eu achava ou não achava bonito.
Entre um clique e outro fui conhecendo melhor aquelas pessoas, pela primeira vez em muitos anos de academia, eu conhecia de verdade o trabalho — a arte — da minha irmã e dos meus sobrinhos. Foi fácil me surpreender com a capacidade e com a qualidade do que eu via ali e que, definitivamente, estava muito além da apresentação de colegial que eu tinha imaginado. Isso me rendeu alguns bons desafios naquele dia e eu sabia que eu queria fotografar uma ponta – o tal do pointé – e um salto com as pernas bem esticadas – que depois descobri, chamava-se jeté.
Na verdade, foi muito empolgante estar ali com uma câmera. Todos os figurinos, agitação, todo o ensaio, o sincronismo, as passadas de coreografia, pessoas se maquiando, demaquilando. Toda a luz, poses, beleza. Tanta força e leveza. Tudo se apresentava como um universo muito diferente do meu e eu me pegava pensando: “e os caras vem falar de futebol pra mim?”
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