
I ATO
II ATO
II ATO
IV ATO (Final)
O espetáculo da LaBayadere foi um desafio muito bom. Eles tinham alguns estilos diferentes dos que eu tinha trabalhado com a Corpus e o auditório era enorme e isso implicava em distância, mas ainda assim nós tinhamos a mesma liberdade para compor. Ali ficou claro que conhecer alguns detalhes era muito importante mas havia uma segunda coisa, que era vital: A intimidade com o ballet.
A intimidade é importante porque tudo ali é pensado, existe uma história a se contar, um sentimento que se quer transmitir e o figurino, a iluminação (que eu tinha aprendido principalmente com a fotografia de bandas) o desenho de palco, os carões — as expressões faciais dos bailarinos — são os veículos utilizados para informar tudo isso: Tudo fica sob a batuta do coreógrafo que é marcada pelos “cinco, seis, sete e oito”.
Valdir Zeller no ensaio geral do espetáculo da Labayadere escola de dança. Mogi das Cruzes / SP
Nas fotos, passei a buscar essas histórias e sentimentos ao invés de focar apenas na parte visual. Talvez ‘buscar‘ não seja o termo correto, com todo o contato e vivência que eu tinha na academia, toda a amizade das bailarinas, meus sobrinhos, minha irmã e outros professores, esta relação já estava estabelecida. Fugia dos cliques indiscriminados e buscava os ápices dos movimentos, com o meu ballet fora do palco. Nesse ponto, eu já havia me tornado um membro da Companhia de ballet da Corpus, e enquanto escrevo me pergunto se todos já contam mesmo com a minha presença, como se eu fosse um outro bailarino.
Eu não sei a diferença entre um arabesque e um atitude. © Conrado Tramontini

Com a LaBayadere, apesar de não estarmos dentro da academia e de nem todos nos conhecerem, sempre estivemos presentes com a função de registrar o espetáculo que foi feito por eles. Para mim, essa relação se transformou em um afeto que tentei também transportar para as fotos. Foi também na LaBayadere que conheci o Valdir Zeller, um excelente coreógrafo que, em poucas palavras, fortaleceu ainda mais o meu conceito fotográfico para o Ballet e me levou para outros desafios. Eu já estava buscando a história e o sentimento e com a sua amizade, além desses dois, ele me levou à tentativa de capturar poesia. Nossa parceria, era quase silenciosa: ele carregava no vermelho e eu me virava para capturar.

No final de 2011, fotografando o espetáculo da LaBayadere daquele ano, eu descia as escadas da platéia enquanto fotografava um solo e pisei em falso em um degrau. O crepitar no tornozelo, durante o entorse, era certeza de que aquilo não era bom. Eu sentei nos degraus sentindo o pé latejar. A dor era tanta que eu mal conseguia me concentrar nas fotos, os olhos ardiam e meu rosto se contorcia numa careta ofegante.
Foi ali, no meio daquela dor, que eu me lembrei do episódio que acontecera meses antes, durante o meu pedido de casamento no palco — sim. Tinha lugar melhor para pedir a mão da minha bailarina? — naquela ocasião eu havia dito às meninas da Corpus Dance que, por acompanhar o dia-a-dia do ballet, eu via o quanto era possível para todos os envolvidos transformarem dor e suor em beleza. Eu me lembrei ali, de todo o esforço que todos faziam, as broncas, os elogios, as cobranças e as realizações, a dor e as alegrias e tive a certeza, de que não seria a minha dor, que conseguiria me impedir de registrar o esforço deles.



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