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Entrevista: Fernando Rabelo

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Natural de Minas Gerais, o fotógrafo Fernando Rabelo é o tipo de pessoa que tem muita história para contar. Presenciou dois golpes militares. Um no Brasil e outro no Chile, onde sua família se estabeleceu após exílio de seu pai. Deixou a efervescência política da América Latina e se estabeleceu na França, local onde seu gosto pela fotografia nasceu e foi aprimorado. Após o início da anistia política, voltou ao Brasil e iniciou a carreira de fotojornalista trabalhando para os mais importantes jornais do Brasil, inclusive como Editor de Fotografia do Jornal do Brasil.

Atualmente, Fernando se divide entre seu trabalho documental, tendo lançado dois livros, e o resgate de fotografias históricas, através de seu blog Imagens & Visions, publicando fotografias icônicas e também trabalhos autorais desde 2007.

Com a recente explosão das insatisfações políticas no Brasil — principalmente dos que pedem a volta dos militares no poder — Fernando tem se dedicado a resgatar imagens e histórias, inclusive pessoais, que nos remetem a um país sangrento e autoritário, provando que a fotografia, alinhada ao fotojornalismo, é um importante instrumento de denúncia. Abaixo é possível conferir a conversa que tivemos com o fotógrafo por email.

 

© Foto de Fernando Rabelo. O "clochard" da Rue des Écoles. Paris, 1978.

© Foto de Fernando Rabelo. O “clochard” da Rue des Écoles. Paris, 1978.

© Foto de Fernando Rabelo. Estação de metrô La Défense. Paris, 2006.

© Foto de Fernando Rabelo. Estação de metrô La Défense. Paris, 2006.

Atelliê Fotografia: Sua família e você, ainda novinho, sofreram muito durante a ditadura no Brasil e acabaram sendo exilados, passando pelo Chile até se estabelecerem na França, onde você acabou dando os primeiros passos na fotografia. Quais os fatores que te influenciaram por esse caminho?
Fernando Rabelo: Desde muito jovem eu fui testemunha ocular de dois golpes militares, o do Brasil em 1964, e do Chile em 1973. Muitas destas cenas estão registradas na película do meu “cérebro”. Aos 14 anos, vivendo exilado com a minha família na França, eu ganhei da minha mãe a minha máquina fotográfica. A partir dai eu nunca mais parei de fotografar. A França foi fundamental no amor que tomei pela fotografia, quando ingressei na Escola Louis Lumière como aprendiz de fotógrafo.

© Foto do Álbum da família Rabelo. Véspera da partida para o exílio. Belo Horizonte, 1964.

© Foto do Álbum da família Rabelo. Véspera da partida para o exílio. Belo Horizonte, 1964.

© Foto de Kaoru Higuchi/JB. Eu no colo do meu pai, o abraçava, não querendo que ele partisse para o exílio. Rio de Janeiro, 1964.

© Foto de Kaoru Higuchi/JB. Eu no colo do meu pai, o abraçava, não querendo que ele partisse para o exílio. Rio de Janeiro, 1964.

 

Atelliê: Você voltou ao Brasil com o fim da anistia, aos 17 anos, e trabalhou nos principais jornais do país, como Folha de São Paulo, O Globo e Jornal do Brasil. Como foi enxergar através da câmera o Brasil que você ainda não conhecia pessoalmente?
Fernando: Eu conheci o meu Brasil já quase adulto. Fiquei muito impressionado com a pobreza e as desigualdades sociais. Trabalhar na grande imprensa me possibilitou conhecer de perto as mazelas nas grandes cidades brasileiras. Vi de perto cenas dolorosas, como também cenas de amor e fraternidade. Trabalhar em jornal foi uma verdadeira lição de vida e de humanidade.

 

Atelliê: Você tem três trabalhos de destaque — a série Imagens de um Flâneur em Paris e os livros Tributo à Lagoa, sobre a lagoa Rodrigo de Freitas e Cores e Luzes, que retrata a cidade de Belo Horizonte a partir do alto. São trabalhos distintos mas que se fundem no processo de uma documentação pensada para a eternidade. É esse o foco principal da sua fotografia?
Fernando: Sim, sou um amante da fotografia urbana. É fundamental que registremos as sociedades pelo mundo, as grandes concentrações de seres humanos. Essas fotos servirão como base para futuros estudos sobre a condição humana. É fundamental fotografar as pessoas e suas condições de vida para as futuras gerações.

© Foto de Fernando Rabelo. Meninos engraxates se banham na Lagoa Rodrigo de Freitas. Rio de Janeiro, 1999.

© Foto de Fernando Rabelo. Meninos engraxates se banham na Lagoa Rodrigo de Freitas. Rio de Janeiro, 1999.

© Foto de Fernando Rabelo. Estudante tenta evitar o confronto, erguendo os braços e pedindo calma no meio da confusão. Place de La Nation. Paris, 2006.

© Foto de Fernando Rabelo. Estudante tenta evitar o confronto, erguendo os braços e pedindo calma no meio da confusão. Place de La Nation. Paris, 2006.

 

Atelliê: Apesar dos arquivos e negativos fotográficos serem um bem durável, sempre existe uma história por trás de cada registro e essa história pode acabar se perdendo com o tempo. E aí nasce o seu trabalho de resgate dessas histórias. Como surgiu essa ideia e como se dá o processo de seleção?
FernandoA proposta do meu blog e da minha página no Facebook é resgatar imagens que possam de alguma maneira nos ensinar alguma coisa sobre a humanidade. Os registros fotográficos tem um enorme potencial didático, e a Internet é um espaço que atinge centenas de milhões de pessoas no mundo, nem juntando todas as bibliotecas do mundo teremos essa quantidade de leitores. Financeiramente esse trabalho não me rende nada. Mas, tenho um enorme prazer de faze-lo, com forma de contribuir na melhoria das condições humanas, em todos os sentidos. Resgatei diversas histórias, são muitas, que não terei com enumerar aqui.

 

Atelliê: Pesquisando na internet, tomei conhecimento do trabalho do fotógrafo Levi Bettweiser que se dedica a resgatar negativos antigos ainda não revelados. Recentemente ele encontrou 31 rolos de filmes da Segunda Guerra Mundial. É um trabalho semelhante ao seu. Qual a importância desse resgate histórico para as futuras gerações, principalmente para os novos fotógrafos?
Fernando: É fundamental que resgatemos e preservemos todas as fotografias já feitas desde o seu descobrimento, como já disse anteriormente, elas serão de extrema valia para as futuras gerações nos estudos da condição humana.

© Bettmann/ Corbis A mãe que colocou a venda seus 4 filhos para escapar da miséria. Chicago, 1948.  "Esta triste fotografia feita em 04 de agosto de 1948, e publicada em um jornal de Chicago, chocou a opinião pública nos EUA. Na imagem vemos Lucille Chalifoux, uma mãe de 24 anos de idade, grávida de seu quinto filho, casada com um homem desempregado, dezesseis anos mais velho, que no desespero colocou a venda seus 4 filhos, para escapar da miséria." (Fonte: Blog Images&Visions, por Fernando Rabelo - 28/07/2014)

© Bettmann/ Corbis A mãe que colocou a venda seus 4 filhos para escapar da miséria. Chicago, 1948.
“Esta triste fotografia feita em 04 de agosto de 1948, e publicada em um jornal de Chicago, chocou a opinião pública nos EUA. Na imagem vemos Lucille Chalifoux, uma mãe de 24 anos de idade, grávida de seu quinto filho, casada com um homem desempregado, dezesseis anos mais velho, que no desespero colocou a venda seus 4 filhos, para escapar da miséria.” (Fonte: Blog Images&Visions, por Fernando Rabelo – 28/07/2014)

Foto de Anibal Philot. Manifestação estudantil. Brasil, 1968. "Esta é um registro fotográfico marcante dos protestos estudantis de 1968 no Brasil. Segundo Carla Siqueira, que coordenou o projeto Memória do Movimento Estudantil, o rapaz de camisa branca é o diretor de TV Luiz Gleiser, Nos arquivos da UNE consta que se trata do ex-presidente da entidade Honestino Guimarães, assassinado em 1973 pela ditadura militar e que nunca teve o corpo encontrado.  Luiz Gleiser acaba de me confirmar que a pessoa de camisa branca é ele mesmo."

Foto de Anibal Philot. Manifestação estudantil. Brasil, 1968.
“Este é um registro fotográfico marcante dos protestos estudantis de 1968 no Brasil. Segundo Carla Siqueira, que coordenou o projeto Memória do Movimento Estudantil, o rapaz de camisa branca é o diretor de TV Luiz Gleiser, Nos arquivos da UNE consta que se trata do ex-presidente da entidade Honestino Guimarães, assassinado em 1973 pela ditadura militar e que nunca teve o corpo encontrado. Luiz Gleiser acaba de me confirmar que a pessoa de camisa branca é ele mesmo.” (Fonte: Blog Images&Visions, por Fernando Rabelo – 11/12/2014)

© Foto de Benny Gool. O menino cego Willem Venter encontra Nelson Mandela. Worcester, África do Sul, 1997. "Há um ano morria Nelson Mandela, o “Madiba”, aos 95 anos de idade. Esta é uma imagem rara, que me toca muito. Em 1997, na estação de Worcester, durante uma viagem no luxuoso trem azul, Mandela desceu do trem para receber as saudações do menino cego Willem Venter. O menino acariciou delicadamente o rosto de Mandela, que sorriu ao receber o afago." (Fonte: Blog Images&Visions, por Fernando Rabelo - 05/12/2014)

© Foto de Benny Gool. O menino cego Willem Venter encontra Nelson Mandela. Worcester, África do Sul, 1997.
“Há um ano morria Nelson Mandela, o “Madiba”, aos 95 anos de idade. Esta é uma imagem rara, que me toca muito. Em 1997, na estação de Worcester, durante uma viagem no luxuoso trem azul, Mandela desceu do trem para receber as saudações do menino cego Willem Venter. O menino acariciou delicadamente o rosto de Mandela, que sorriu ao receber o afago.” (Fonte: Blog Images&Visions, por Fernando Rabelo – 05/12/2014)

 

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