Sempre me chamou a atenção na obra de Lars Stephan como ele trabalha a libertação como conseqüência e ruptura de um ambiente repressivo. Nascido em uma cidadezinha tradicional alemã, ele se formou em Cinema e trabalhou por trás das câmeras em produção de vídeo e na frente delas como modelo por um tempo até se encontrar no papel duplo que é fotografar a si mesmo. Através de seus autorretratos, Lars expõe o que possui de mais íntimo para se libertar de todas as imposições sociais e culturais que sempre o prenderam. Ao mesmo tempo, ele atualmente viaja o mundo e registra a liberdade que hoje o cerca em planos abertos e com linhas soltas, mas o grande desafio de Lars tem sido conseguir se livrar dos preconceitos e da atenção que suas fotos receberam pelos motivos errados. Conversei com ele sobre sua arte, a Alemanha e design com exclusividade para o Atelliê Fotografia.

Atelliê Fotografia: Lars, por que fotografar?
Lars Stephan: Eu gosto de imagens, gosto da habilidade que uma foto tem de contar uma história. Prefiro a imagem estática ao invés da imagem em movimento, porque o filme, por exemplo, te define um tempo para ver uma imagem: você olha pra ela por um tempo e ela vai embora. E eu gosto que a fotografia te permite parar, olhar e entender qual é a história que ela conta.

Atelliê: Isso é curioso, porque muitas das suas fotos parecem ter movimento.
Lars: Entendo o que você quis dizer com “movimento”, mas é que eu sempre gostei do resultado que duas ou mais imagens tem juntas e do que resulta delas. Dá um senso maior de narrativa, e daí vem esta impressão de movimento.

Atelliê: Nessas narrativas, você prefere contar histórias que já são familiares para você, ou investigar algo de novo que te instiga a curiosidade?
Lars: (pausa) Os dois. Quando eu conto uma história, eu já tenho um assunto em mente. Como na série da floresta, eu queria fazer fotos que mostrassem como eu me sinto em relação à Alemanha, o quanto ela é opressora e escura – não apenas nas cores, mas também nas relações das pessoas. Então, eu fiz uma foto que originou toda uma série. Quanto mais eu fotografava, mais eu descobria sobre o que eu queria contar, por exemplo nas que eu tirei durante o inverno. Elas são muito claras, mas ainda assim as árvores parecem opressoras. Por isso também que não há espaço aberto nas fotos. E quando tem esse espaço mais aberto, ainda assim é um ambiente não-convidativo… ainda é hostil.

Atelliê: Como você escolhe o que será enquadrado nesses planos abertos?
Lars: Quando eu tenho uma ideia e começo a trabalhá-la, geralmente é um processo um pouco intuitivo. Eu sempre uso iluminação natural, então eu me inspiro com as cores que aquela luz me dá e começo a trabalhar a partir daí. Como nas fotos do deserto, no Egito, em que a luz do amanhecer estava linda e projetando muitas cores na areia. Eu queria aproveitar aquela imensidão toda nas fotos.

Atelliê: E por que essas fotos no deserto trabalham melhor a dimensão do espaço? Por que não é a Alemanha?
Lars: Exatamente, porque não é a Alemanha. O que é engraçado, porque os egípcios poderiam dizer que “a Alemanha é um país com muita liberdade, em comparação ao Egito”, mas eu como estrangeiro lá, e isso acontece em todo o lugar que eu vou, eu sempre vi muita liberdade ali, muito mais que na Alemanha. Acho que eu tenho problemas com meu país (risos).

Atelliê: Então as fotos que você faz dos outros países, mesmo as que não são autorretratos, todas dizem muito sobre você?
Lars: (pausa) Bom, eu fotografo as coisas que me interessam onde quer que eu esteja. Gosto de ver como as pessoas são diferentes, mas sempre acho que elas acabam sendo muito parecidas em qualquer lugar. Mas são coisas e temas que interessam a mim, então acabam mostrando quem eu sou também.

Atelliê: Você tenta construir um estilo entre as suas fotos ou ele surge naturalmente?
Lars: Eu nunca planejo muito como as fotos vão ficar. Sei que muita gente é contra isso e faz diferente; o Hitchcock, por exemplo, sempre sabia como cada um dos seus planos ficaria no filme. Mas eu sou o contrário, eu me inspiro pelo ambiente e gosto de experimentar. Acho mais fácil interagir com o cenário à medida em que trabalho ao invés de planejar e criar algo artificial. E quanto a estilo, eu sei que me interesso muito por cores, composições e histórias, além de design. Muitas das minhas fotos tem vários elementos de design.

Atelliê: E como você lida com as pessoas que não entendem como você trabalha a si mesmo como tema e objeto da foto?
Lars: A questão é que as pessoas nem sempre entendem que por mais que a foto expresse algo meu e eu esteja nela, quem elas estão vendo é um personagem. Eu mesmo nunca me vejo em uma fotografia.

Atelliê: O que você vê?
Lars: Eu vejo aquela pessoa. Eu sempre o chamo de “aquela pessoa”, ou “aquele personagem”, alguém que se torna um com o ambiente ao redor, mas não eu. Digo, eu estou na foto, meu corpo está na foto, mas eu estou usando a mim mesmo para contar uma história. Não sou eu, o Lars usa roupas e não iria a algum lugar nu (risos).


 

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