Precisei de quase seis meses para conseguir digerir este texto, estas fotos e toda esta cumplicidade. Finalmente, depois de superado todo o meu egoísmo em reler inúmeras vezes esta carta para mim mesma, decidi que era hora de publicar para que os nossos leitores também possam se emocionar.
Em ilustre participação nos registros dos Diários de Bordo Atelliê, tenho o prazer de apresentar os sentimentos e os cliques de Renato Cabral:
Para quando você deixar de me amar.

“Esta carta só fará sentido quando já não puder mais ser desdobrada e lida. Até lá, deixo escrita esta confissão. Porque se o relógio leva e lava todas as coisas, que ele poupe a poeira destas frases. Este é o único jeito de enganar o tempo: convidando-o para ler. Porque enquanto ele se distrai com os encantos de nossas pequenas histórias, de nossas breves grandezas, podemos aproveitar a chance de nos lembrar, de nos amar longe de seus olhos e, assim, durarmos mais, minha querida, que seja como tinta no papel.
Enquanto você se banha, escrevo. A viagem nem começou e já te recordo em contornos, preenchendo de rabiscos meu caderno com você. É que você faz falta, mesmo quando está apenas no quarto ao lado. E por faltar, posso te olhar. Porque te olhar em presença é estar esquecido de tudo. Só é mesmo possível pensar nas coisas e nos outros quando eles já não estão. Toda presença é a morte de qualquer pensamento. E é isso que acontece quando vejo seu corpo. Fico alheio ao mundo, mudo de mim. É quando minha alienação se torna excitação e o esquecimento é lenha para as veias. Enquanto você se perfuma, aproveito para suar palavras aqui e assim poder gozar você.
Falo de algo remoto e perdido, como aquela cidade no alto da montanha, que todos querem ir visitar. Algo feito de pedras e que resiste. Falo das horas milagrosas que aprendemos a rezar juntos sem ter que abrir a boca para pedir nada; falo de como compartilhamos a mesma colher e dividimos o tremor do corpo sob cobertas e abraços; falo de como às vezes para que ambos caminhem juntos é preciso que um carregue a mochila do outro. Mas como não acredito em milagres, continuo achando que tudo foi mesmo apenas aquela pintura de que você falava enquanto caminhávamos nas bordas de um lago tão gelado, nas alturas do mundo, perto do silêncio do frio das nuvens.

Para todos os presentes que tem me dado, não posso retribuir. Me sobra, por isso, este mau jeito de fazer o caminho reverso de nossos passos nesta viagem. Preciso voltar ao lugar daquele dia em que você me convidou para um Agosto ainda tão distante, para uma viagem impossível, porque ainda éramos tão improváveis um para o outro. Preciso voltar lá para saber se este Agosto existiu.






Foram apenas 15 dias. Um tempo que nem é tempo para o tempo que as coisas exigem para se fixar ou se desmanchar de vez. Mas de tanta intensidade tatuada na pele, de tanto a pupila se esticar, fiquei mais gordo de nós e é isso que faz minha bagagem pesar. Não trouxe nada do mundo. Tudo para poder voltar um dia. Mas trouxe muito de você, caso não consiga mais te acompanhar em outras caminhadas.
Lembra quando o escritor disse que não há história ruim ou feia? E não há mesmo. Porque toda história quando é real e honesta, quando temos a chance de contá-la, é uma grande história. E é isso a vida, minha querida, não um “ter vivido”, mas a coragem de fazer valer a pena “o que foi vivido”. Só por aqui estamos enfim falando de nós dois. Mesmo que eu esteja escrevendo sozinho.
Quantas vezes tive medo de te perder na multidão. No silêncio é mais difícil se perguntar quem realmente esteve ao nosso lado. Na multidão, todo barulho é companhia, todo encostão é presença. Sozinho, você precisa saber que existe pelo vento, pelo barulho do pé no chão, pela respiração no ar rarefeito. Porque são tantas as pessoas a habitar um só lugar ao mesmo tempo. E quantas vezes não pensei nessas mesmas pessoas para sorrir ao lembrar que de todas, escolhi você para habitar minha mão quando te ajudava a subir no ônibus, a erguer a mochila, a limpar seu suor. E que você escolheu a minha para tirar minhas remelas pela manhã.
Agora na sua ausência percebo. Quando você está longe é que posso sentir a ameaça do tempo e a tortura que é duvidar do que foi vivido. É quando você falta que os fantasmas aparecem trazendo a notícia de que o mundo nasceu de novo e é preciso ir vê-lo sob a pena de não termos vivido. E nesses momentos desaparece a cumplicidade que nos fazia amigos, amantes, companheiros de viagem. Por isso escrevo, para que mesmo sozinho, possa te encontrar de novo.







Já disseram tantas vezes que o mundo é um lugar tão grande. E por acreditarmos nisso, o lugar onde estávamos estava sempre fora do lugar, atrasado de ida, adiado de partida, e qualquer chegada era apenas a distância entre uma promessa e uma dívida. Mesmo assim fomos. E ir nos arrancou as correntes das canelas, nos limpou do ar das antigas esquinas e o ruído das pessoas que só sabiam reclamar já não incomodava. Essa lá fora puxando as vistas como se nossos olhos fossem novelos a se desembaraçar. Tudo menos embaralhado de rotina, dos velhos hábitos que ressecam a juntas e as vistas. Tudo já tão distante das segundas-feiras que deixam os “paus moles e as xoxotas secas”.
Entre sonhar e partir, escolhemos matar a frustrações de nunca termos saído do lugar. E assim descobrimos que tudo o que sempre disseram sobre o mundo era uma mentira. Mas foi preciso ir lá ver que eles estavam errados. Porque se não fossemos, eles não iriam por nós. E o nosso até breve soou aos que ficaram como uma peste. Porque quem fica está sempre mais pesado do que quem parte.
Quantos passos contam a vida que tivemos, as histórias que guardamos e os amores que não viraram mentiras pelo caminho, até o degrau final? Muitos se esquecerão de nós antes que essas fotos envelheçam, minha querida. Mas estaremos sempre novos nesse lugar, sempre que nos lembrarmos de nós. Porque quando finalmente tivermos voltado para casa, teremos mais do mundo em nós e mais de nós um no outro.
Guarde essas imagens porque tudo o que virá depois disso será novo, e todas as coisas novas serão sempre como antes, se repetindo como um eterno retorno. E é essa mesma a única pergunta que vale a pena ser perguntada: se você pudesse viver sua vida novamente, faria as coisas que tem feito? Eu faria tudo de novo. Não para poder viver de novo. Mas para poder viver com você mais uma vez.







E agora posso te dizer. O amor é aquilo que torna tudo em mundo, tudo em viagem. O amor é essa ponte entre o tempo que escorre e mata e o tempo que para e guarda. O amor é não precisar temer o relógio. O amor é aquilo pelo qual já não é preciso se perguntar onde estamos ou para onde vamos. Porque quem ama já está, já é. Por isso o amor às vezes é representado por uma aliança, por um círculo. É porque assim, já não há chegada nem partida. Para o amor, tudo é o mesmo lugar, e todo ponto é o local para se estar.
Por isso te dei aquele anel no alto da montanha de mil horizontes. Não foi para te pedir nada. Não foi para te pedir para ser minha. Foi só para te agradecer pelo que nos tornamos juntos. Finalmente somos. E a partir de agora toda ida é a volta para este lugar que se chama a nossa felicidade, esse pedacinho de mundo que fizemos um no outro. Mas você só irá entender isso lá na frente, quando essa aliança se quebrar, quando você um dia deixar de me amar. E será nesse dia que você não precisará mais ler esta carta. Até lá, meu motivo, volte a ela mil vezes para que possamos sempre estar juntos de novo. Agora tenho que parar de escrever, porque você já vem saindo do banho e é preciso deixar de lembrar para ir viver e continuar a viagem. Já sinto saudade de tudo. E tudo ainda nem começou.”









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