Vamos pensar em algumas palavras-chave próprias que estão em evidência no mundo hoje em dia? Que tal sustentabilidade (ou mesmo reciclagem), convergência de meios e até mesmo déficit de atenção ou hiperativismo? Uma passeada por aquelas revistas de variedade semanais, ou seus websites, fazem esses termos saltarem à vista, entre vários outros. A partir dessas tags, vamos tentar esboçar uma ideia cada vez mais familiar na produção artística e que tem tudo a ver com fotografia: a fragmentação.

Pra começar, vamos lembrar que a foto por si só já é um “pedaço” de uma realidade maior que você enquadra em um só plano, ou uma tela em que você organiza vários elementos independentes (o que tem sido muito feito, principalmente após a popularização de softwares como o Photoshop). Esse segundo conceito se aproxima também das colagens que ficaram populares no começo do século 20, feitas por nomes como Braque e Picasso, que davam novos significados às imagens criadas através de pedaços.

Pablo Picasso

Marcel Duchamp

 

Nessa mesma época, quando muito se discutia o sentido a arte, pessoas como Duchamp criavam obras utilizando partes de objetos, ou objetos inteiros. É como se uma escultura fosse criada com photoshop a partir de duas ou mais imagens. Pouco depois, ficaram famosas as fotomontagens, que repetiam a tendência utilizando fotografias, entre outros elementos.

Richard Hamilton

 

Já nos anos 80, as estéticas do vídeo e do videoclipe, construídas a partir da linguagem cinematográfica, continuam criando obras cada vez mais fragmentadas com seus muitos cortes, além de serem meios em que várias outras linguagens artísticas se convergem, como fotografia, texto e música, por exemplo. Ao longo das últimas décadas, com o desenvolvimento dos dispositivos portáteis e um mercado publicitário cada vez mais exigente, nosso raciocínio tem sido moldado cada vez mais a um padrão multimídia, ou seja, um pensamento que acompanha essas tendências naturalmente e que acaba criando produtos multifacetados. Esta obra aqui embaixo, por exemplo, faz arte visual a partir de recortes de revistas.

Sandi Schimmel

 

Quando, há algumas semanas, a gente falou sobre sinestesia, a ideia tinha justamente isso por trás, a naturalidade com que percebemos algo com diversos sentidos simultâneos, não apenas a visão ou a audição, por exemplo. A época pós-moderna (ou o período que vem depois disso, como alguns afirmam) em que vivemos acaba sendo uma versão hiperativa da antropofagia que nossos modernistas defendiam, em que o artista engole, digere e devolve ao mundo as diversas ideias que o cercam. Fiz questão de construir esse texto justamente falando de tantas coisas e mudando tanto de assunto abruptamente para que ele também fosse uma colagem de conceitos e referências para você reciclar como bem entender. O próprio conceito de “copiar” ou “recortar” e depois “colar” é cotidiano para todos que usam computador (como eu e você) e nossa cabeça já aprendeu a funcionar assim.

Entender a nossa época e como ela veio a ser assim é fundamental para aproveitar melhor a produção artística ao nosso redor. Uma última dica pra você observar a pluralidade de meios em que a gente vive é Scott Pilgrim contra o Mundo (2010), filme baseado em uma história em quadrinhos que usa a estética de videogames. Uma das comédias mais divertidas e bem sacadas que já vi.

 

Até semana que vem!

 

 

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