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Em Quadros: A Experiência da Sinestesia.

 

Era o primeiro de abril de 2010, aquele dia famoso em diversos países pelas peças que as pessoas pregam nos amigos (e eu, infelizmente, costumo me enquadrar na categoria de “amigo que cai em todas”). Eu passeava pela web e me deparei com uma notícia no site da Kodak sobre uma nova tecnologia na compressão dos pixels que ativaria áreas do cérebro responsáveis pelo olfato, daí as sinapses a partir da visão nos dariam a ilusão de sentir o cheiro do que vemos. Achei o máximo! Fiquei uns bons quatro minutos olhando os exemplos e me perguntando porque eu não conseguia sentir nada, até que entendi a brincadeira (uma das tantas que me pegaram naquele dia).

Por mais embaraçoso que seja esse relato, serve bem para ilustrar a vontade que temos de juntar os sentidos numa só experiência. Por que fazemos isso? Provavelmente porque é assim que a gente vive, com visão, audição, olfato, tato e paladar ativos constantemente e simultaneamente. Poder juntar dois deles ou mais em uma só obra seria expandir a percepção a um nível muito mais pessoal e profundo.

 

Nesta foto, Cristiano Madureira - que frequentemente trabalha com a textura da pele - preferiu usar a textura dos tecidos para provocar nosso sentido tátil.

 

Daí o papel tão marcante do audiovisual na nossa sociedade. Geralmente, as pessoas respondem com muito mais facilidade à televisão, cinema e computação justamente pelo envolvimento ser maior quando se recebe um produto que tenha som e visualidade ao mesmo tempo. Teatro e dança são populares há milênios pelo mesmo motivo, contribuindo ainda mais pela questão presencial já que por estar no mesmo ambiente, a sensação é quase tátil (o mesmo se aplica à diferença de ouvir uma música com fones de ouvido ou ao vivo).

Tem um conceito passeando pelo texto desde o início que é chave para quem é envolvido em algum nível participativo com artes: Experiência. Esse termo tem aparecido cada vez mais em diversas ciências humanas ao longo das últimas décadas – desde a psicopedagogia até o marketing – e a gente pode defini-lo como o estado de passar por uma série de sensações e/ou pensamentos que resultem em uma percepção pessoal de alguma situação ou tema. Complicou? É como jantar em um restaurante: Claro que o paladar é o grande protagonista da noite, mas toda a percepção visual do prato e do ambiente, assim como o som e até as outras pessoas em volta colaboram para montar o quadro na sua memória sobre como foi comer lá.

 

Em "Monstros S.A.", o personagem Sulley ganhou a textura de pelúcia para que o público tenha vontade de tocar nele.

 

Caímos naquela velha pergunta que sempre acompanha o Em Quadros: “Tá, mas que que isso tem a ver com as minhas fotos?”. Simples: Às vezes, podemos fazer algumas escolhas em nosso trabalho que permitam que as pessoas tenham uma percepção além da visual, o que vai resultar em uma experiência marcante para quem as vê. Como? Alguns detalhes como texturas aparentes (que atiçam nosso tato) ou ritmo na composição (que remete à música) podem ajudar na Sinestesia (a mistura de sentidos), além de um cuidado com legendas e em que contexto você está publicando as fotos.

Separei algumas imagens que podem quebrar as barreiras sensoriais e provocar sinestesias em quem experimenta observá-las. Inspire-se com elas e 3ª que vem a gente conversa mais sobre fazer arte.

 

A vida urbana ganha tons frios no trabalho de Wolfgang Tillmans, que tenta evocar a doçura das frutas através de suas cores.

 

 

O trabalho de Georges Mathieu traz pinceladas em linhas e composição rítmica, que faz com que nossos olhos passeiem pelo quadro como se ouvíssemos uma música.

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