Cada época vê a arte de um jeito, então cada tempo produz seu próprio conceito de quem é o artista. Pode parecer óbvio, mas é um daqueles casos em que todo mundo tem uma ideia de como a coisa funciona e ninguém percebe que cada um vê isso de um jeito diferente.

Daí, queria hoje conversar sobre diferentes tipos de artista, até pra gente ter uma ideia melhor sobre como a nossa época tem feito arte. Muitos desses conceitos foram criados pelo americano Ezra Pound (1885-1972), que viveu e testemunhou grandes mudanças no cenário artístico mundial e soube entender e explicar o que estava acontecendo e quem estava causando tudo isso.

Nas sociedades em que a produção artística era vista apenas como mais um ofício, o artesão era frequentemente um escravo ou algum servo de alguma camada baixa na sociedade. Tem até aquela história do pai do Alexandre (o Grande) que humilhou o filho publicamente em uma festa quando o viu tocando harpa, porque isso era “trabalho de escravo”. Os séculos foram passando e, principalmente no Renascimento, a figura do artista começou a ficar mais parecida com a que temos hoje. Foi a época em que surgiram os que Pound chama de inventores, aqueles em que suas obras trazem novos procedimentos, como os que descobrem novos materiais ou aprimoram alguma linguagem.

Leonardo da Vinci, inventor

Muitas vezes, os inventores são confundidos com os mestres. Esses aí não trazem revoluções artísticas, mas eles sabem usar o que os inventores descobriram e fazer algo ainda superior, combinando os processos já estabelecidos, atingindo a excelência em suas obras. Como sempre, tem os “orkutizadores” das coisas boas, que popularizam as novidades deixando o nível cair. Esses, Pound chama de diluidores.

Sebastião Salgado, mestre

Daí, vem também os artistas que são meramente bons (se é que ser bom é algo “mero”, já que às vezes é raro). Eles fazem parte de uma época e/ou local que propiciam um bom trabalho, mesmo que eles não tenham qualidades salientes, ou seja, mesmo que eles não se destaquem tanto individualmente por um estilo próprio. Esses são os que mais produzem. Aí, tem também os especialistas, que fazem muito bem uma determinada função dentro de uma linguagem. Como um bom músico para trilhas-sonoras, um fotógrafo que é excelente apenas em retratos ou um designer que trabalha muito bem apenas fontes. E tem também os lançadores de moda, aqueles que pegam algo que acontecia em um período anterior e faz as coisas voltarem a ser como eram antes.

Mumford and Sons, banda lançadora de moda

Andy Warhol (inventor), em foto de David LaChapellle (especialista)

Ah, no meio de tudo isso, veio o Romantismo e sua ideia de artista como alguém “perturbado” ou alguém que enxerga coisas que os outros não veem. Esse conceito dura até hoje e ninguém se surpreende quando alguém é chamado de “esquisito” por trabalhar com arte. Falando nisso, essa discussão da figura do artista hoje ganhou um argumento bem interessante com o clipe Marry the Night, da Lady Gaga. Mesmo se você não gostar das coisas dela (que é o meu caso), pode aproveitar a reflexão que ela faz (novamente, o meu caso) sobre como é o artista nos nossos tempos. Fica a dica.




 

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