Brincamos há uns meses que a lente é o pincel do fotógrafo. Sendo assim, será que a gente pode dizer que o Photoshop é nosso cinzel? Não, este não vai ser um post sobre manipulação de fotografias, só vamos mostrar que essas duas linguagens artísticas são mais parecidas do que parecem. Além disso, nosso último texto antes do break de fim-de-ano (aliás, Feliz Ano Novo!) chamava-se Sobre Moldes e Modelos, então vai ser legal continuar o assunto.

Então, vamos lá. Veja as seguintes imagens e responda: O quê escultura e fotografia podem ter em comum?

Míron, 'O Lançador de Discos'

Cristiano Madureira


Ellen von Unwerth

Enrico Mazzolani, 'Giovanezza'

Vou dar duas respostas. Em primeiro lugar, vem a mais óbvia: O estudo da figura humana. Tanto a fotografia com modelos, quanto a escultura figurativa (ou seja, a não-abstrata) que retrata pessoas utilizam luz e sombra, texturas, cores e formatos para reproduzir o corpo humano e, talvez, comunicar algo a partir dele.

E (pra não dizer que não falamos de manipulação), assim como o artista com um cinzel pega um material bruto e dá a forma que quiser, o fotógrafo (ou um técnico em manipulação de imagens) pode pegar a imagem de um corpo e modificá-lo (esculpi-lo) para deixar do jeito que lhe for mais conveniente (e jogue a primeira pedra aquele que nunca se sentiu um Rodin — ou um cirurgião plástico — tratando um retrato no Photoshop).

Rodin, 'O Pensador'

Annie Leibovitz

A segunda resposta para aquela pergunta é: as duas linguagens trabalham com o instante. Sei que isso é mais óbvio nas fotografias, mas perceba como as esculturas também retratam um momento específico, nos dando a possibilidade de imaginar o que aconteceria nos segundos ou minutos antes e depois do instante registrado, tenham elas muito movimento ou não.

É justamente a idéia de movimento que confere dinamismo tanto nas fotos, quanto nas estátuas, e movimento implica em tempo – seja no vento que bate nos cabelos e roupas, ou na posição desconfortável (que logo deve ter sido desfeita). Reveja as imagens acima e veja se todas elas não nos dão a possibilidade de adivinhar o que poderia acontecer em torno delas em uma linha-do-tempo.

A grande diferença na recepção entre essas duas formas artísticas não é o grau de exatidão entre elas e o real, nem mesmo a diferença entre os materiais usados (ou o peso delas), mas o fato das fotografias serem bidimensionais, enquanto a escultura é feita e experimentada em três dimensões. A partir daí, a gente poderia propor a ideia que as esculturas são fotos tridimensionais, ou que fotografias são estátuas pixelizadas. Por que não?

E este ano, a coluna Em Quadros vai continuar assim, cheia de reflexões e questões, arriscando algumas respostas abertas pra gente manter a cabeça funcionando em todos os seus lados. Até semana que vem.


 

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