Dario Torre

 

Desconfio que o ditado popular não é “A curiosidade matou o artista” por que todo arteiro que se preze daria uma de ninja e a mataria antes – isso se não fizesse amizade com ela para aproveitar a inquietude e teimosia que todo curioso tem, características muito benéficas para a produção artística.

Tentar entender melhor, achar novas maneiras de fazer alguma coisa, conhecer mais sobre algum tema e procurar respostas (ou ainda mais perguntas) são atividades frequentes para quem cria, e cada uma delas requer um certo empenho para ser realizada. A boa notícia é que os resultados são muito superiores aos das criações feitas só com o que já tem, com a falsa satisfação de que já se sabe o bastante.

Por isso, meu palpite é que arte é um trabalho para investigadores. E eu prefiro visualizar um detetive à moda antiga, daqueles que usam disfarces, lupa e bloquinho de anotações – o chapéu, capa e bigode de Sherlock Holmes (o clássico, não esse novo do cinema) são opcionais, se você curtir o efeito cômico de imaginar seu artista preferido nesse personagem. Vou te contar por que.

Banksy

Todo mundo sabe pra que serve um disfarce. É uma camuflagem, uma maneira de não ser percebido em alguma situação que mudaria caso as pessoas soubessem quem está ali de verdade. A grande maioria dos fotógrafos vai te contar que gosta de fazer retratos de pessoas e/ou cenas quando os retratados estão à vontade o bastante para não perceberem mais as câmeras. Parece até que é quando o artista usa máscara que os outros tiram as suas.

 Daí vem a lupa, que aumenta a realidade e revela detalhes que antes não eram percebidos. Isso acontece tanto com o uso de lentes e equipamentos para capturar o que o olho nu não enxerga à distância, quanto no trabalho de temas que nem todos conseguem ver e o artista precisa mostrar, como um problema social ou ideológico, ou ainda novas maneiras de olhar para o que é abstrato.

E tem também o bloquinho de anotações. Sim, pra escrever, não um equipamento pra digitar. Há ideias que só podem ser exprimidas em palavras se elas tiverem a sua letra. Mas a questão nem é essa, mas a atividade de rabiscar e rascunhar imediatamente o que se descobre nas pesquisas. Pode ser uma nova referência, uma ideia inspiradora ou uma pista para a próxima peça do quebra-cabeça que é construir sua arte – vai tudo pro papel.

Araquém Alcântara


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Claro que estou brincando com a imagem hollywoodiana do detetive, mas investigar (pesquisar, ir atrás de pistas e deduzir respostas) faz parte de produzir arte. A francesa Sophie Calle sempre levou isso a sério e já fez coisas como seguir um estranho por duas semanas para descobrir mais sobre sua vida, ou se disfarçou como camareira em um hotel para revirar os quartos dos hóspedes e encontrar inspiração pras suas obras.

Veja bem: Não aconselhamos ninguém a invadir a privacidade ou ir contra a ética de ninguém só para se inspirar, mas encorajamos totalmente aqueles que querem saber mais, os curiosos e insatisfeitos que precisam ir mais além nem que seja na sua própria arte, aqueles que querem explorar melhor as linguagens que já conhecem e dominam. Esses são os detetives de coração, os que deixam olhos e ouvidos bem abertos e atentos constantemente para encontrar cada pista que leva à solução do caso.

Sophie Calle



 

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