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Série fotográfica discute o racismo com as mãos

Via Afreaka — O artista plástico Moisés Patrício (28) reflete na série fotográfica ‘Aceita?’ diversos conflitos cotidianos. A cada dia, uma imagem nova é composta, fotografada e divulgada no Instagram. Os elementos utilizados para compor sua obra variam de acordo com o sentimento provocado pelo lugar onde o artista frequenta. “Eu chego no lugar e o que me incomoda, o que me dá a sensação de desmaio, de alegria, de tristeza, de revolta ou de manifestação política, serão os elementos ativadores de ideia”, explica.

A partir de influências como Marcel Duchamp, Moisés que teve seu primeiro contato com a arte aos 14 anos, como assistente do artista plástico Juan José Balzi, busca encontrar uma equivalência ao que chama de perda da humanidade. “Eu parto do discurso dele de pegar um objeto que não tenha nenhum traço humano, nenhum gesto, e tento ativar na minha mão”, conta.

O Candomblé, religião fruto de uma série de rituais e cultos aos orixás proveniente da entrada dos negros africanos para o trabalho escravo no Brasil, também está fortemente presente nas obras do artista. Como empréstimo tradição, Moisés faz uso do gesto das mãos abertas em oferecimento de tudo o que considera descartado pela sociedade (a arte negra, a herança africana, a intolerância à diversidade étnica e religiosa) e questiona se (re)visto de uma nova maneira, esse descarte teria uma chance de ser aceito. Assim, uma pulseira de palha, pedaços de plásticos, uma peça de metal, tampinhas de garrafa amassadas e restos de uma lâmpada ganham, na mão do artista, novos significados. “São resíduos de relações humanas devolvidos à circulação pelo ato fotográfico”, explica.

Com o ‘Aceita?’ Moisés tenta quebrar o preconceito existente contra o Candomblé, que sofre forte negação do brasileiro.  “Mesmo que as pessoas façam parte disso, existe o ditado que é ‘um pingo é letra’, ou seja, elas são proibidas de falar e se tem raiz africana vai sofrer as piores hostilizações”, afirma. Nos relatórios dos Censos Demográficos dos anos de 2000 e 2010, foram apresentados que apenas 0,3% da população admitiu ter como religião a Umbanda e o Candomblé. Um dado interessante é a relação por cor. Em 2010, dos que admitiram seguir, 47% era de cor branca e apenas 21,1% negra. Elisa Callaux, gerente de pesquisa do IBGE, em 1995, falava à Super Interessante que os números não representavam a realidade. “Os próprios fiéis evitam assumir, por medo do preconceito”, confirmando a hipótese do artista.

Moisés define sua arte como uma foto-performance, na qual o processo é mais importante que o resultado: “Eu estou no lugar e preparo o ambiente, depois clico e gero a imagem. Assim, me interessa a ideia de usar o pensamento como ritual. O processo de repetição; de evocar a presença de um cotidiano que é bem complexo”, conta. Apesar do desafio de compor uma foto por dia durante dois anos, não lhe falta inspiração. “É um processo que eu acho que vai durar a vida inteira, porque dá para fazer muitas coisas”.

Além da crítica ao racismo, à intolerância étnica e religiosa, Moisés também visa questionar o consumo. Em diversas fotografias há o uso de marcas conhecidas sendo oferecidas ao público, a exemplo a imagem com o nome Sadia: “Eu coloco o valor que a palavra Sadia tem, o volume, o cheiro, o sabor e o que ela provoca. Eu ofereço essa contradição: você aceita essa coisa do produto industrializado, da mortadela, da coisa que mais dá doenças?”, indaga ao público.

Dentre as diversas escolhas realizadas por Moisés, divulgar seu trabalho e oferecer um retorno foi uma das mais difíceis, mas também “a mais legal”, como define o artista “Nas fotografias do séc. 19, por exemplo, o negro era o cafeeiro, o lavrador. E quando se falava da família, era da família de cinco mil anos atrás. Então, você tinha uma informação e uma desinformação. Já o Facebook, ou rede social de modo geral, é uma ferramenta de socialização, de uma voz do ser humano que sofre de conflitos desta época e, neste contexto, eu tenho essa possibilidade”, afirma.

Ainda assim, para os seus seguidores, que recebem a cada dia uma imagem diferente, compreender o seu significado ou as intenções de Moisés não é uma tarefa simples: “Não é uma foto fácil de ler, ela não tem uma resposta pronta, precisa juntar os elementos e conforme se olha todo o contexto, as ideias se organizam na cabeça”, admite, adicionado que, inclusive, algumas vezes, quando faz uma crítica a determinadas atitudes, como ao preconceito regional, não é compreendido corretamente, mas mesmo assim recebe respostas de aceitação: “Às vezes as pessoas aceitam e não sabem o que é”.

Apesar de buscar um espaço para difusão da arte negra, vivida, sentida e contada por seus autores, rejeita o discurso de inclusão. Para Moisés, a palavra beira ao colonialismo e à adesão de uma cultura ideal: “Por que o outro lugar é o lugar da salvação? Por que onde eu estou e quero estar é o problema?”, mas ao mesmo tempo, compara o Brasil a uma brincadeira infantil: “Existe um jogo de esconde-esconde. Aqui em SP tem aldeias indígenas, muitos artistas afro-brasileiros que as pessoas não conhecem e os escondidos acabam sendo nós, que temos o fenótipo mais tenso, mais vivo na nossa aparência.”.

Com o ‘Aceita?’, Moisés não oferece nenhuma resposta ou solução aos conflitos vividos e apresentados, mas questionamentos. “O meu grande objetivo é questionar. Não é trazer respostas, porque eu sei que, de uma forma ou outra, o mundo é movido pelas perguntas. Hoje existe muita resposta pra tudo e nada funciona”. Contudo, o artista não se mostra pessimista, para ele, o importante no Brasil é fazer o seu melhor: Tem uma doação que é inerente a nossa cultura, que tem a ver com a reciprocidade, se você é bem tratado, você trata melhor o outro e assim por diante. Então, para mim, a prática da reciprocidade é uma prática de esperança”, diz.

Com quase um ano de projeto, Moisés já tirou uma lição: “A arte tem me ensinado que não se pode abaixar a cabeça, achar que está tudo bem, pensar que o mundo é assim e que tem que ser assim, que cada um tem seu papel na sociedade definido por sua etnia, religião ou classe social”. Como artista, busca não repetir os mesmos erros do passado. “Eu tive muito cedo uma relação com a burguesia. Então, aonde eu vou, sou sempre bem recebido, mas o meu desafio é que eu não reproduza o mesmo papel de exclusão com os outros, com meus pares e meus próximos, porque é só eu sair deste contexto que passarei a sofrer tudo de novo. Se eu for para rua Oscar Freire, eu não consigo entrar numa loja; tem um muro invisível, tem todas as pessoas, tem os seguranças, tudo conspira contra você. Na arte, eu vejo como vou refletir sobre isso”, diz.

Mais que um artista contemporâneo que utiliza de redes sociais para divulgação de sua obra, Moisés é um ativista que busca integrar as diferentes culturas presentes no país. Junto a artistas como Lígia Lisboa, Adriana Varejão, Beatriz Milhazes, Luiz Zerbini, Thiago Martins de Melo, Dalton Paula e Sidney Amaral, trabalha para difundir a arte negra no Brasil. Assim o ‘Aceita?’ pode também ser considerado um pedido do próprio artista de aceitação, da sua arte, da sua religião, dos seus conflitos e da sua história que se estende além da obra.

E você, Aceita?

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