Separar conteúdo inspirador e interessante é uma tarefa árdua sobre a qual nós da Equipe Atelliê nos debruçamos dia após dia, mas preciso confessar que nada me dá mais prazer do que apresentar para os nossos leitores alguém que — além de talentosíssimo como tantos sobre os quais já falamos por aqui — é também um grande amigo.

Declaradamente apaixonado pelo ballet e por uma bela bailarina (como ele mesmo já nos contou em entrevista neste link), o fotógrafo Conrado Tramontini ainda não sabia,  até escrever este depoimento para a Galeria Atelliê, que outra grande paixão também vinha bailando em seu coração: as paisagens urbanas da cidade de São Paulo.

Eu, que algumas vezes me esforço pra conseguir fazer alguns cliques urbanos (sem muito sucesso, na maioria delas), tenho assistido de camarote pelo Flickr a evolução desta paquera entre o rapaz e a cidade que parece se enfeitar para os seus cliques. E, como em toda boa paquera, ele ainda não tinha percebido que esta história já se transformou, há muito tempo, em um grande amor contado em belíssimos frames por atualização atrás de atualização.

Sim, ele ainda não tinha percebido… mas, como acabei de dizer ali em cima, o cara é meu amigo e eu precisei adverti-lo. A seguir, tenham todos o prazer de ‘ouvir‘ o depoimento de Conrado sobre o processo de aceitação deste amor.

Apaixone-se também:

 

Roubando da Cidade suas Luzes Apaixonadas — por Conrado Tramontini.

 

Quando fui convidado para escrever sobre as fotos que faço, da cidade de São Paulo, a Lívia mencionou “luzes apaixonadas”.

Pensei em falar sobre a necessidade de um tripé devido ao tempo de exposição elevado tanto quando uso uma grande angular, 18mm, com abertura mínima de f/4.5 e na maioria das vezes f/8 ou f/11 e ISO 200, para pegar os prédios e o movimento dos carros bem definidos; ou mesmo quando uso uma lente clara, como a 50mm f1.4, para capturar estrelas, luzes mais fracas ou menos movimento.

Mas a verdade é que essa expressão, apaixonadas, ficou martelando na minha cabeça desde então. Não acho que “paixão” seja realmente o termo adequado para descrever meu sentimento pela cidade, mas talvez a Lívia saiba de algo que eu não saiba – e isso não seria novidade..

Eu olho pela janela e vejo todas aquelas luzes brilhando como vaga-lumes, alguns girando em torno de algo, outros parados, acendendo ou apagando e imagino uma história, alguém dirigindo para o Shopping em uma sexta a noite, alguém trabalhando até tarde no escritório, uma família em volta da TV comendo pizza. Às vezes penso também na beleza de uma edificação, de um prédio. Quem o projetou? Quais foram as pessoas que o construíram? Para mim, são amostras da grandiosidade do feito humano. Hoje em dia um prédio é coisa comum, mas empilhar concreto dessa forma, ainda sim, é algo monumental.

Isso tudo se junta na imensidão das cidades, milhares e milhares de luzes se espalhando até se perder de vista seja pela topologia  - o que é bom – ou pela neblina marrom da poluição – o que é vergonhoso.

O escritor americano William Gibson, descreve em ‘Neuromancer’ – obra que originou o gênero cyberpunk –  uma cidade Japonesa em sua visão de futuro.

“Agora, dormia nas urnas mais baratas, as que ficavam junto ao porto, sob
os projetores de quartzo-halogêneo que iluminavam as docas durante toda a
noite, como se estas fossem enormes palcos; onde não era possível ver as
luzes de Tóquio devido ao clarão do céu que luzia como um aparelho de
televisão, nem sequer o logotipo holográfico no topo da torre da Fuji Electric
Company. A Baía de Tóquio era um espaço negro onde as gaivotas
circulavam sobre mantas errantes de espuma de borracha plástica branca.
Além do porto, espalhava-se a cidade, as cúpulas das fábricas dominadas
pelos amplos cubos das sedes das grandes empresas. O porto e Chiba
encontravam-se separados por uma zona fronteiriça de ruas antigas. Uma
zona sem nome oficial, a Night City, com o Ninsei no centro.”

A obra de Gibson são fortemente marcadas pelos detalhes com que descreve o seu universo, luzes, cores, cheiros e especialmente a vida das pessoas nas cidades. Quando fotografo a cidade, procuro por isso, pelas pessoas, pelas vidas e histórias os caminhos seguidos, as linhas de comunicação as construções e o efeito da cidade sobre as pessoas. A sua personalidade e a sua companhia.

É, talvez paixão seja um termo adequado…

 


 

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