Últimas Postagens

A fotografia de CAPA, Robert

SPAIN. Barcelona. August 1936. Republican soldiers leaving for the Aragon front. The sentence written on the train means "UHP" (Union of Proletariat Brothers) swears upon these fraternal letters that you will sooner dye than live under tyranny."

Espanha, 1936

Robert Capa, este húngaro fotógrafo libriano (22 de Outubro de 1913), estampou a sua existência pelas lentes da morte. Considerado um dos mais importantes profissionais do fotojornalismo, teve sua carreira celebrada pelas imagens que fez nas inúmeras guerras que cobriu. E todos devem se perguntar, o que de tão extraordinário fez este homem?

Para entender, precisamos fazer um breve resgate histórico da trajetória deste cidadão comum, que tão pouco gostava de guerra e era um militante de esquerda na adolescência, chegando a participar de manifestações contra a ditadura em Budapeste, onde foi baleado e convidado a se retirar do país. Refugiado em Berlin, cursou alguns semestres de jornalismo e, teve seu início de carreira na fotografia, como aquele clássico office-boy na agência fotográfica Deprot, que passa cobrir eventos sociais aos finais de semana.

Dois anos depois (1933), com o regime nazista apertando os cintos, Capa se bandeou para Paris, onde fixou residência e fez sua vida ao cobrir a Guerra Civil Espanhola, depois a resistência dos chineses na Manchúria contra a invasão japonesa, em 1938 (Guerra Sino-Japonesa), a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a Guerra Árabe-Israelense (1948) e a Guerra da Indochina (1954).

CHINA. Hubei. Hankou. July-September, 1938. After a Japanese air raid.

China, 1938

Saber as guerras que presenciou e passar suas imagens num livro de fotografia de guerra, não mensura a sua importância. Capa desponta na transição das grandes câmeras fotográficas e, início do domínio cultural da imagem, pelos adventos da TV que chegava ao Ocidente, em países como França, Alemanha e Estados Unidos. Expandindo assim, a participação da imprensa na vida dos cidadãos comuns.

“A fotografia passou a ser vista pela sociedade como fruto da visão e representação do olhar do fotógrafo e, no fim da década de 30, instituiu-se “a profissão de produzir, por meio de uma câmera, um testemunho individual da guerra e das atrocidades da guerra”. (SONTAG, 2003, p.30). Sousa (2000, p.84)

Capa testemunha ocular da “Morte de um meliante”, em Setembro de 1936, retratou o “Soldado caído” em sua primeira viagem a guerra e, obteve o trunfo da foto mais veiculada da história. A revista francesa VU foi a primeira a veicular, um ano depois a revista americana Time, porém muitas dúvidas de lá pra cá foram levantadas em relação à legitimidade da imagem. A discussão se faz desnecessária, visto: “A guerra era, e ainda é, a notícia mais irresistível – e pitoresca. […] esporte internacional.” Sontag (2003, p.43). Nesta justificativa do dever de registrar a guerra e suas peculiaridades cruéis, o fotojornalista inicia a sua trajetória sempre em busca da máxima da imprensa – dramaticidade – Robert Capa lutou para se diferenciar e retratou a guerra do ponto de vista dos soldados de modo intimista, como quem desejava apresentar a realidade dessas pessoas comuns que sofriam ao presenciar a guerra.

A instaurada estética do horror se apropriou do estilo candid photography, considerado padrão no fotojornalismo moderno, por abandonar a “pose” no registro do assunto. As posições “naturais”, levavam ao conhecimento dos espectadores o “verdadeiro” retrato do cotidiano.

O caráter documental assumido pela imagem resultam do modo como são colocadas ao público e, por seguinte como este se posiciona frente a elas. Fotógrafos, como Robert Capa se utilizaram de seu talento artístico e intelectual, para documentar sua visão de mundo. O simpático esquerdista, pacifico, bon-vivant se colocou em todos os conflitos de dimensões internacionais, acreditando ser uma forma de negar veementemente o advento da guerra.

FRANCE. Normandy. June, 1944. German soldiers captured after the landing.

França, 1944

FRANCE. Normandy. June, 1944. US troops come ashore at Omaha Beach days after the D Day landings.

França, 1944

Passado a década em conflitos, Capa começa apresentar sintomas de estresse pós-traumático e, resolve juntamente com outros fotógrafos (David “Chim” Seymour, Henri Cartier-Bresson e George Rodger) fundar a agência Magnum (1947), com a esperança de obterem independência e maior liberdade de criação e ação na hora de fotografar.

A agência se tornou exemplo dentre os fotojornalistas, mas mesmo com maior controle sobre a veiculação de suas fotografias, sofreu deturpações ao longo dos anos, se afastando das suas perspectivas originais. Robert Capa não pôde impedir e, em 1953, se afastou do trabalho no escritório para viajar fotografando estrelas de cinema e, mostrar seu trabalho pelo mundo. Pouco tempo depois, foi interrompido pelo convite da revista Life para fotografar a Guerra da Indochina.

ISRAEL. Tel Aviv. A month after the declaration of Independence. On the 21st June 1948, the Commander of the ALTENA demanded authorisation to land 500 Jewish immigranst, and also arms. The government refused, as the entree of arms violated the terms of the cease fire with the Arabs.Persuaded that the Israelian army would not open fire on Jews, a terrorist commando unit of the Irgoun announced that it had the intention of offloading the passengers on the beach at Tel Aviv. The wreckage of the Altalena on the beach at Tel Aviv.

Tel Aviv, 1948

Após ter sido baleado em Tel-Aviv prometeu nunca mais se arriscar em campo, mas a vontade de “voltar a ser Capa”, o fez aceitar o convite e voltar ao trabalho de fotógrafo de guerra, onde acabou morrendo em 25 de maio de 1954, ao pisar uma mina terrestre. Robert Capa foi daqueles fotógrafos que morrem com a câmera na mão e passam por essa vida escolhendo o próprio nome. Fez da sua personalidade nômade, uma figura intrigante, cheio de gosto por aventuras e engajamento em construir sua “estética da proximidade” por meio da fotografia que lhe acabou conferindo notoriedade no jornalismo de guerra.

É bastante importante, entender as fotografias de Capa, como reflexo de seu tempo, um produto cultural cuja interpretação era de responsabilidade ética da sociedade internacional. Porém, antes de concluir a fotografia precisa ser entendida aqui como símbolo, responsável pela elaboração figurativa de um sistema social, com alto poder de transformação. Ou seja, precisamos considerar Capa, um grande influenciador nos assuntos de conflito social de sua época, ao se utilizar da fotografia como arma de linguagem e reprodução política, apontada a todos nós até hoje.

Juliana Polippo produtora multimídia, especialista em Discurso Fotográfico. Atualmente aluna especial da disciplina de Imagem e Consumo no Programa de Mestrado em Comunicação pela Universidade Estadual de Londrina. Idealizadora do canal de vendas de arte independente Polippo Art Shop.

Deixe seu comentário

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado. Required fields are marked *

*