Últimas Postagens

Galeria National Geographic: O poder da Fotografia

Artigo originalmente publicado na National Geographic — Trinta e quatro anos antes da origem desta revista, o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard profetizou, com algum desdém, que a recém popularizada arte da fotografia estava condenada a um destino banal. “Com o daguerreótipo”, notou, “todos poderão mandar fazer o próprio retrato – algo que antes era um privilégio apenas dos mais abastados –, ao mesmo tempo que tudo caminha para que tenhamos a mesma aparência e, sendo assim, não será necessário mais do que um único retrato.”

A National Geographic Society não se preocupou, no princípio, em verificar na prática a tese do filósofo. O objetivo primordial da entidade era estimular a exploração do planeta, e as páginas cinzentas de sua publicação oficial não eram exatamente uma orgia visual. Muitos anos se passariam até que os exploradores da revista começassem a usar a câmera fotográfica como um instrumento para realizar ensaios fotojornalísticos de impacto, capazes de alterar o modo como vemos o mundo e, nos melhores momentos, até mesmo transformar vidas.

Quando isola, na continuidade do tempo e do espaço, um precioso fragmento da vida, uma grande foto pode explicitar todas as facetas deste mundo e fazer com que jamais voltemos a vê-lo como antes. Afinal, como disse o próprio Kierkegaard, “a verdade é uma armadilha: não há como capturá-la sem ser por ela capturado”.

Grosvenor, 1930

Grosvenor, 1930

Quase 160 anos depois, a fotografia virou uma cacofonia global de instantâneos. Milhões de imagens são postadas na internet a cada momento. Do mesmo modo, somos todos flagrados por câmeras em tempo quase integral e sabemos disso – logo mais teremos de incluir as situações espontâneas na lista das espécies em extinção. É nessa terra orwelliana, repleta de câmeras, que os fotógrafos de NATIONAL GEOGRAPHIC continuam a se destacar. Apenas em parte isso se explica pelas escolhas pessoais (por exemplo, qual lente usar sob determinada iluminação) que definem o estilo de cada um. As melhores fotos lembram que são capazes de nos transportar a mundos normalmente inacessíveis.

Quando digo às pessoas que trabalho para esta revista, vejo os seus olhos se arregalarem e sei bem a reação delas quando acrescento: “Mas apenas escrevo as reportagens”. Já o fotógrafo de NATIONAL GEOGRAPHIC é a personificação do conhecedor do mundo, de quem testemunha todas as belezas terrenas, daquele cujo emprego provoca inveja em todos. Claro que assisti ao filme As Pontes de Madison– já entendi a minha situação e não me queixo. Por outro lado, no meu trabalho, com frequência acompanho um dos fotógrafos da revista, e o que vi deles só reforçou a minha admiração e atenuou a minha inveja. Eles são impelidos pela feroz determinação de contar uma história por meio de imagens transcendentes. Por outro lado, são vítimas de uma odisseia diária de obstáculos (multas por excesso de bagagem, climas inóspitos, ossos fraturados, malária, detenção). Longe de casa e da família durante meses, com frequência acabam sendo considerados como indesejáveis embaixadores em países hostis ao Ocidente. Ou obrigados a passar uma semana inteira no alto de uma árvore. Ou a comer insetos no jantar. Poderia ainda acrescentar que Einstein, que fez um comentário depreciativo a respeito dos fotógrafos, chamando-os de Lichtaffen (“macacos atraídos pela luz”), nunca teve de acordar às 3 da manhã para realizar o seu trabalho. Não vamos confundir nobreza com glamour. O que me cativa, quase tanto quanto as imagens, é a capacidade que demonstram os meus colegas para suportar de bom grado condições tão difíceis.

A atração da câmera se impôs a todos e, com o tempo, o trabalho deles passou a refletir distintas paixões: conflitos humanos e culturas em extinção, felinos de grande porte e insetos minúsculos, o deserto e o mar. Mas o que há de comum nos fotógrafos de NATIONAL GEOGRAPHIC? Uma ânsia pelo desconhecido, a coragem de admitir a própria ignorância e a sabedoria de reconhecer que, como se diz, “uma foto jamais é tomada – ela nos é concedida”.

Testemunhei alguns dos meus colegas seguir durante dias, e mesmo semanas, os seus retratados, apenas para conhecê-los a fundo antes de, por fim, levarem a câmera aos olhos e acionar o disparador. Muitos deles já passaram anos imersos em mundos isolados, como o dos samis, criadores de rena da Escandinávia, o das gueixas, no Japão, e o das aves-do-paraíso da Nova Guiné. O resultado desse empenho é evidente nas fotos. O que não se nota nas imagens, porém, é o senso de responsabilidade que seus autores têm para com os que ousaram confiar no forasteiro e abrir-lhe a porta do seu mundo. É uma proposta que privilegia a fotografia enquanto colaboração entre duas almas unidas pelas lentes.

A consciência é a outra qualidade comum. Pois apreciar a beleza das focas-da-groenlândia no golfo de São Lourenço também é constatar a fragilidade do seu hábitat: dezenas de filhotes se afogando por causa do derretimento do gelo flutuante, uma consequência direta das mudanças climáticas. Testemunhar as atrocidades da guerra nos garimpos da República Democrática do Congo significa vislumbrar uma esperança: ao mostrar aos negociantes de ouro na Suíça de onde vêm os seus lucros, talvez haja a possibilidade de que façam algo para mudar a situação.

Nos últimos 125 anos, o que se viu foi que Kierkegaard estava tão certo quanto equivocado a respeito da fotografia. As imagens em NATIONAL GEOGRAPHIC acabaram por revelar um mundo marcado não pela monotonia, mas por uma assombrosa diversidade. Também registraram, cada vez mais, sociedades, espécies e paisagens ameaçadas pelo nosso ímpeto de homogeneização. Se os meus colegas têm um vício em comum, é o de usar o enorme alcance e a influência desta revista para ajudar a melhorar o planeta. Parece exagero? Bem, basta perguntar aos negociantes de ouro suíços. Eles viram as fotos de Marcus Bleasdale expostas em Genebra e, quase da noite para o dia, interromperam as compras do metal extraído no país africano.

McCurry, 1984

McCurry, 1984

Todo profissional vive com a expectativa de uma foto única, aquele encontro de oportunidade e habilidade que ocorre uma vez na vida e faz com que uma imagem entre de imediato no panteão em que estão, entre outras, a dos soldados na Segunda Guerra ficando a bandeira americana em Iwo Jima, feita por Joe Rosenthal; a do assassinato de Lee Harvey Oswald por Jack Ruby, registrado por Bob Jackson; ou ainda as imagens em cores da Terra feitas pelos astronautas da missão Apollo 8. No entanto, a foto mais emblemática já publicada na revista não é de ninguém importante nem de um acontecimento que mudou o curso da história. É o retrato de Sharbat Gula, uma menina afegã com estimados 12 anos quando Steve McCurry a encontrou em um campo de refugiados no Paquistão. O que os seus intensos olhos verdes diziam ao mundo na capa da edição de junho de 1985 era algo mais forte do que o clamor de um milhar de diplomatas e agentes em organizações assistenciais. O olhar da menina afegã penetrava em nosso subconsciente coletivo e arrancava o mundo ocidental de sua desatenção. Ali estava a força da verdade. Era algo que se reconhecia de imediato e que não mais podíamos esquecer.

McCurry fez esse retrato imortal bem antes da disseminação da internet e do surgimento do smartphone. Agora, em um mundo anestesiado pela avalanche diária de imagens, conseguiriam ainda os olhos da menina nos dizer algo urgente sobre nós mesmos e sobre a ameaçada beleza do planeta que habitamos? Para mim, a resposta afirmativa é mais do que óbvia.

Uma grande foto pode tornar explícitas todas as facetas deste mundo e fazer com que jamais voltemos a vê-lo como antes.Confira abaixo as imagens que ilustram as páginas 38 e 39 da edição de outubro de 2013 de NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL – Especial 125 anos

Continue lendo sobre a NatGeo no Atelliê.

Deixe seu comentário

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado. Required fields are marked *

*