Assistente Abelhudo no Chuveiro.

Rabiscado por Roberto Guglielmo em 29/03/2012

A foto sobre a qual iremos conversar hoje é mais uma campanha para a fábrica de vidros Santa Marina. Para divulgar os produtos produzidos por eles, era necessário mostrar as aplicações dos vidros e desta vez eu trabalhava para uma agência de publicidade na qual, logo de cara, o diretor de arte não gostou que eu estivesse fazendo o trabalho. Além de ser uruguaio, o sujeito era muito mal encarado e queria que o trabalho fosse feito por um amigo fotógrafo patrício dele… isso era muito comum naqueles tempos: ter as fotos publicitárias feitas por amigos dos diretores de arte.

Mas a verdade é que eu também estava entre amigos, fui convidado pelo próprio dono da agencia para realizar este trabalho — e neste caso minha amizade era de maior cacife. Mas relembrar esta história me deixa pensando no quanto o mercado veio mudando com essa guerra entre amizade (e camaradagem) versus preço justo. Eu falo sobre a década de 80, mas meu protesto é firmado também para o mercado atual. Aqueles que se dizem fotógrafos vêm cobrando um preço lá em baixo e o que parece é que a maioria dos compradores não estão muito preocupados com a qualidade no final das contas… estou errado?

Gostaria mesmo de ouvir a opinião de vocês, mas voltando às nossas Memórias de um Fotógrafo de hoje, a campanha do cliente contava com uma verba excelente e precisariamos oferecer grandes fotos. Uma delas seria feita no litoral norte, em uma mansão com vidros temperados na janela e me lembro que poderíamos ficar naquela casa deliciosa o tempo que fosse necessários para encontrarmos a melhor luz e condições para uma boa foto. Bons tempos…

Este é assunto para outra história aqui no Atelliê Fotografia, porque o assunto da foto de hoje focado nos vidros de um Box de Banheiro onde uma mulher estaria tomando banho. Como sempre, a caçada inicial para a aprovação de uma modelo (com um belo corpo era o requisito número 1) e passada esta etapa, montaríamos a simulação de um box de chuveiro.

Tudo pronto e partimos para o estúdio. E, logo de cara, eu já tinha dois problemas: como os anúncios eram basicamente verticais eu precisaria usar um back 6X9 na minha Sinar 4X5 o que, apesar do bom resutado, era a decisão de partir para um vôo cego, pois o back ficava exatamente no lugar do vidro despolido e era preciso olhar por cima do fole e imaginar como a foto seria. Eu decidi o resultado também que usaria uma objetiva 210 mm — o que corresponderia um a 135 mm num formato 35mm — que também me ofereceria um ótimo resultado, apesar de ser uma objetiva cheia de travas, regulagens e configurações (que eu sempre proibia todos os assistentes de tocarem nas travas sem a minha autorização prévia).

O filme 6X9 permitia que eu fizesse 8 tomadas num rolo 120mm e para mim foi suficiente estas tomadas. Tudo estava conforme o layout combinado e não havia razão para fazer mais fotos. Depois de uma comemoração com vinho, lá fui eu para o laboratório (naquele tempo eu ainda não revelava o E6 no estúdio) e, duas horas e meia depois, vocês não imaginam o meu espanto ao checar o filme pronto na mesa de luz.

Nada! Tudo que eu observava naquela mesa era um filme virgem e transparente, ou seja, ele não havia sido exposto.

Era muito difícil pra mim acreditar numa situação daquela. Eu confiava muito na minha fotometragem e tinha certeza que tudo havia sido feito de forma perfeitamente correta. Fui para casa remoendo o que poderia ter acontecido e ao chegar e analisar a minha câmera, encontro o botão do sincronizador em uma configuração adulterada.

Eu fiquei ainda mais intrigado, pois pra mim o sincronizador era religioso e eu nunca alterava aquela regulagem. Eu tinha certeza que não havia feito nenhuma mudança e tive então a certeza que alguém, com acesso à minha câmera, tinha mexido naquelas travas: um assistente abelhudo. Bati um papo com ele naquele mesmo dia, o coloquei contra a parede e foi assim que eu soube que ele tinha decidido “experimentar” os botões…

Depois disso, o que me restava fazer era contar com a sorte… e ela me ajudou muito! Parti para o estúdio para repetir a foto e, por sorte, o cenário ainda estava ali. Expliquei para a modelo o que aconteceu e, sorte mais uma vez, ela foi muito simpática, voltando para refazer a foto no mesmo dia por apenas metade do cachê. E então, a sorte apareceu pela terceira vez naquele dia: paguei uma revelação extra noturna cheguei na agência no outro dia com cromos na mão antes que o uruguaio soubesse de alguma coisa… Imaginem o quanto eu estaria frito?

Eu gargalhei muito por dentro quando ouvi aquele diretor de arte dizendo “no momento que você fotografou, eu tinha certeza que esta seria a melhor” cortando o cromo com uma tesoura. Mal sabia ele que não estávamos diante dos mesmos registros.

__________________________________________________

 

“Memórias de Um Fotógrafo” conta os mais de 40 anos de trabalho de Roberto Guglielmo desde o fotojornalismo até a fotografia publicitária. O livro está pronto e à procura de um editor, se você tem interesse em participar desse projeto entre em contato com a gente.

atelliefotografia@gmail.com

__________________________________________________


Dê sua opinião! »