Como grande parte dos fotógrafos, eu também tive a minha fase “Crianças“. Para ser muito sincero, meu ingresso no mundo da fotografia se deu realmente clicando crianças… eu ia nas escolas, fotografava os pequenos brincando no recreio, revelava tudo em casa fazendo ampliações 50×60, mandava montar um poster (muito em voga na grande época das analógicas) e levava tudo de volta para escola. O resultado? Vendia todos os quadros! Me lembro bem como as mães, e a diretora, adoravam o que eu fazia.
Um dos meus segredos, era chegar e fingir que estava fotografando enquanto elas brincavam no balanço ou na gangorra durante o recreio. Quando elas acostumavam comigo, eu carregava o filme na câmera e começava de verdade o meu trabalho, assim já tinha passado o momento que elas queriam posar. A câmera já não era mais novidade e elas ficavam espontâneas e distraídas brincando.
A partir dessa publicidade nas escolhas, começaram a aparecer trabalhos ‘sociais’ de aniversário das crianças, e mais tarde casamentos, etc, e me lembro que foi nessa hora que eu me senti profissional de verdade.
Anos depois, eu conheci um diretor de arte da Mccan Erikson. O sujeito gostava muito de música, tocava piano e como eu gostava muito de tocar bateria, nos reuníamos na casa de seu amigo, um fotógrafo profissional que se chamava Spinoza. Eu conheci vários publicitários naquelas reuniões e entre um encontro e outro, Spinoza ficou sabendo que eu estava começando na fotografia.
Confesso que estava um pouco resistente em mostrar meu trabalho àquele grande fotógrafo e ele, calado, ficou observando as fotos que eu tinha feito daquelas crianças e disse que estavam com um vazio na área de fotografia infantil naquela agência. “Acho que você pode acabar achando um lugar conosco, Roberto”, eu não acreditava.
O primeiro trabalho que ele me passou, foi uma menino segurando um pombo e hoje, olhando pra trás, acho que ele queria ver como era a luz que eu conseguia quando me entregou esta missão. Fotografei em cromo e 6×6 e o resultado foi tão bacana que em uma semana eu me vi trabalhando em um projeto para a Nestlé.
Aquilo era fantástico, verbas generosas para as produções acompanhadas de muita exigência e complexidade para a execução das ideias. Meu primeiro trabalho para eles foi este que lhes apresento hoje: um anúncio de meia página que mostraria uma criança aprendendo a andar, acompanhada de ‘sua’ mãe. E encontrar esses modelos foi complicadíssimo, era impossível achar uma mãe de verdade com um rosto bonito e um filho bonito e eles tinham padrões fechados do tipo de beleza que queriam para este anúncio.
Decidimos usar crianças bonitas com mães postiças, mas os problemas não paravam por aí. As crianças não queriam ir com ‘qualquer um’ e, como estavam realmente aprendendo a andar, elas faziam caretas de medo. Lembro-me que eu passei um dia fotografando não sei quantas fotos de choros e caretas para o casting, tanto da mãe, quanto dos seus ‘filhos’.
Depois de tudo perdido, resolvemos tomar outro caminho e fotografar as bonitas mães postiças da década de 70, com crianças que já sabiam andar. Focamos o trabalho em novos castings e então se passaram novas semanas perdidas. Eu começava a me perguntar se eu não devia ter ficado sossegado clicando crianças se divertindo em gangorras no recreio.
Quando a Nestlé entrou em contato comigo, após ter avaliado o material, recebi duas notícias maravilhosas. Uma delas foi que a ‘mãe’ que havia sido escolhida era uma grande amiga minha, a modelo Vera Heicher. E a outra boa notícia é que me pagariam 3x mais por aquele trabalho de ‘tanto esforço’… só naqueles tempos mesmo.
Aquele foi o meu batismo aos anos fartos da publicidade e me alegro de ter usado uma Hasselblad, com uma lente 150mm e Ecktachrome 64 ASA: Tive um belo resultado!

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