Visitando e Revisitando Cuba.

Rabiscado por Roberto Guglielmo em 15/06/2011

 

Havana — ou mais precisamente Havana Velha — é, sem dúvida, um paraíso para os fotógrafos que se dispõem à ‘fazer por merecer’. Sem enfrentar o calor e os contratempos de comer mal e dormir mal você não vai conhecer Havana e nem mesmo os cubanos.

A primeira vez que visitei Cuba, queria mesmo era ver o que tinha por lá para fotografar e acabei fazendo muitas fotos. Fiquei na casa de uma senhora simpática que alugava para estrangeiros, a casa era boa e bem confortável. Tinha um um café da manhã caprichado incluído, mas tinha também um grande problema: Era muito longe do centro histórico e a conseguir condução, ou ir a pé, era muito complicado. Eu tinha alugado esta casa quando estava ainda aqui no Brasil e, como vi que era perto da Plaza de La Revolucion, achei que seria o lugar que as coisas aconteciam afinal o Fidel ainda estava no comando, mas não foi nada disso… a praça só é importante mesmo em comemorações ou desfiles e eu não conseguia nada no dia-a-dia.

 

Eu tinha combinado de fazer essa viagem com um amigo alemão e naquela noite ele foi até à casa se encontrar comigo. Ao desarrumar sua mala, notou que havia esquecido sua pochete no táxi e, com a pochete, 5.000 euros e mais 2.000 dólares. Pedimos ajuda à dona da casa, ligamos para o táxi do aeroporto… nada. Toda sua vida estava naquela pochete: passaporte, visto cubano, cartão de crédito. Até que depois de dois dias, um limpador de carros noturno, encontrou, localizou a casa e devolveu tudo. Meu amigo pagou à eles 2.000 euros de gratificação e eles compraram uma geladeira e acredito que possivelmente foram felizes para sempre com o que sobrou. Depois disso, nós fomos convidados para tomar uma cerveja geladinha com aquela gente incrivelmente boa e honesta, lembranças muito boas da minha primeira viagem. Visitamos muitos museus e atrações turísticas e também passamos pela maravilhosa Praia do Varadero que é simplesmente deslumbrante (afinal, ali é o Caribe!!), mas foi só ao ver as fotos quando voltei ao Brasil que percebi que eu não tinha fotografado nada do que eu achava de melhor por lá e prometi então a mim mesmo, voltar lá… desta vez, sabendo onde ir, ficar e especialmente o que fotografar. Meu forte na fotografia sempre foi com gente, e eu sabia que lá isso era o que não faltava.

 

 

Voltei depois de um ano e, desta vez sozinho, fui direto para uma casa que eu havia descoberto na primeira viagem. Era uma espécie de cortiço, um prédio bem velho que era o máximo para fotografar e acabei conhecendo todo mundo por lá. Eu tinha levado comigo um monte de fotos que eu tinha feito na viagem anterior com uma leve esperança de poder entrega-las para as pessoas. Eu não tinha certeza que iria encontrar as pessoas que eu fotografara da outra vez, mas fui andando pelas ruas e ao poucos fui reencontrando algumas. Elas ficavam muito felizes mesmo, afinal as pessoas que normalmente vão por lá, dificilmente voltam e muito menos dão de presente as fotos que foram feitas. Dali por diante, todos queriam ser fotografados e isso, vocês devem imaginar, foi uma verdadeira festa para mim… fotografei bastante e depois de anos fotografando, eu tinha resumido o meu equipamento em uma Nikon D300 S e uma lente 18-200. Resolvem para tudo o que eu quero fazer e ficar trocando lentes para mim já era passado!

 

Aprendi muito sobre Cuba, especialmente sobre Havana, vivendo com os cubanos. Pra começar, a língua deles não é bem um espanhol da América do Sul, mas aprendi também sobre a economia, a moeda (complicada no início), a maneira que eles vivem, a saúde, a alimentação, a instrução, a política e posso garantir que é um povo muito amável, musical e alegre. Eles me lembravam muitos os baianos (só que falando espanhol), a vida é bem difícil para eles, mas eles sabem conduzir dentro do que podem… me lembro que na época eu até pensei que se um dia eu fosse um pobre mesmo, seria ali o melhor lugar para viver! O calor daquele povo é bem como a temperatura da cidade: 38º (refrescando para 34º a noite hahaha), por isso eles adoram ficar nas portas e janelas onde há mais ventilação.

 

Com o choque deste clima, peguei um resfriado bem forte quando estava por lá e foi quando eu descobri que eu tinha levado remédio para tudo, menos para resfriado e ali não se vende nada sem a devida receita, então eu estava enrolado. Voltando para a minha casa uma mulher me olhou, disse que eu estava “muy enfermo” e que ela iria fazer um chá milagroso pra mim. Fui para a cozinha com ela, ver a preparação do tal chá e naquela hora pensei que se eu não morresse de resfriado, morria de uma doença qualquer, lá era tudo muito sujo e ela foi moendo umas folhas, socando, misturando com não sei mais o quê e no fim me entregou numa xícara um líquido bem negro. Não sei se já cheguei a contar que morei com os índios por 13 anos entre 1955 e 1967 e lá com eles eu comia e bebia de todo o tipo de coisa e por isso achei que poderia tomar o que fosse na casa daquela mulher que eu também estaria imune.

Acreditem ou não, no dia seguinte seu estava curado mesmo!

 

Tenho muita saudade da vida entre esses cubanos e poderia passar muito mais tempo contando sobre as minhas inesquecíveis experiências em Havana… quem sabe não organizamos uma exposição ou uma palestra para eu poder matar toda essa saudade? Alguém se habilita? :D

 

 

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“Memórias de Um Fotógrafo” conta os mais de 40 anos de trabalho de Roberto Guglielmo desde o fotojornalismo até a fotografia publicitária. O livro está pronto e à procura de um editor, se você tem interesse em participar desse projeto entre em contato com a gente.

atellie@atelliefotografia.com.br

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4 Comments »

  1. avatar
    lívia.fernandes 16/06/2011 at 13:02 - Reply

    Eu amei essas fotos!!

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    Nat plimplim 16/06/2011 at 13:20 - Reply

    e Se eu disser que eu vi aquela cantora de branco nesse mesmo lugar? Se bobear tenho foto tb =)

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    André Felipe 16/06/2011 at 13:52 - Reply

    Nossa, posso ir correndo pra lá?

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    Paula Mariah 16/06/2011 at 18:51 - Reply

    Mais uma grande história!! Adorei saber que eles se parecem com nós baianos. Lindas fotos!! :)

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