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A fotografia e seus determinados fins

"A Life Told with ID Photos", por Ali Mobasser

“A Life Told with ID Photos”, por Ali Mobasser

Eu, essa jovem adulta a descobrir a vida por decisão não-consciente, se depara com a titularidade de fotógrafa nas rodas de conversa. Noutro dia, invoquei caros colegas para uma discussão geracional sobre o fotografar contemporâneo. László se adiantou:

“No futuro, não serão considerados analfabetos apenas aqueles que não souberem ler, mas também quem não entender o funcionamento de uma máquina fotográfica.” (MOHOLY-NAGY, 1936)

A citação do fotógrafo húngaro, repousa no “Tudo sobre fotografia”, livro de 1979, sob a estante do escritório. A voz deste desencarnado, grita no confessionário da minha ressaca. O porre de Instagram com limão e gelo da noite passada, se alojou no meu lóbulo direito e insiste em ecoar questões, que vão desde a percepção sobre a luz até conceitos de arte tradicional.

Barthes (Câmara Clara, 1980), me deu dois tapas na cara quando sentiu no meu tom a estupidez, por dar importância pela obra fotográfica atualmente ser intermediada por dispositivos que pré-concebem a imagem para um determinado fim. A vergonha de tal pensamento, se desfez ao encontrar aconchego nas palavras de “Duchamp que havia compreendido que o que bloqueava a arte era justo o que definia como máquina artística.” (…) “A hipótese que gostaria de sugerir é que obra e operação criativa são duas noções complementares que formam com o artista como seu meio o que lhes proponho chamar de máquina artística da modernidade.” (AGAMBEN, 2013)

Ainda deste ou daquele modo, a inocência artística que havia em mim, insistia em querer resgatar “…a definição de arte na filosofia estética tradicional… como uma ‘finalidade sem um fim’, isto é, uma atividade orientada para que, não obstante, carece de propósito prático no ‘mundo real’ dos negócios, da política, ou da práxis humana concreta em geral.” (JAMESON, 1995) Nessa divagação pelos túneis da existência fotográfica contemporânea, circundo o caminhos de “luz” que vem de escritos das trevas.

A luz, está mesma que percorre tempo-espaço numa velocidade histórica inatingível a qualquer ser humano, perpassa corpos e os recorta e cola em superfícies virtuais. As representações imagéticas fazem de nós deuses em formato de hologramas. A realidade aumentada, não é mais coisa de ficção científica. A era da imagem dá passos cada vez mais velozes no deslocar deste ideal da arte.

Zone 334, por James Popsys

“Zone 334”, por James Popsys

Sinto o sapato apertar e, não me calo diante da violência visual do fazer estético na contemporaneidade. É justo, os tempos são outros e o dialogo representativo da nossa existência precisa ser reconstituído. O dever social em cada um nós precisa ser registrado. Me pego encurralada, entre a ligeira genialidade débil mental de existir e meu olhar, que segue tangível a tudo, mas tão pouco percebe tal representatividade. Este mesmo, que não me mostra nada, além das coisas que vejo. “O que vemos nunca está nos dizendo.”, completa Focault.

A conversa perde a localização, a percepção se achata na medida em que velocidade acelera a produção de imagens. A arte e a cultura são voltadas para o consumo e, se vinculam ao propósito da distração e do entretenimento que se encarregam de alterar nossa forma de ver o mundo.

E eu, aquela jovem fotógrafa do começo do texto em busca da essência artística, como haveria de registrar em superfície a veracidade do existir, se tudo que sou capaz de captar deve ser codificado e decodificado pelo ser externo nesta temporalidade? Onde estou ao me sentar de frente as imagens que passam no deslizar dos dedos? Pra onde vou quando na realidade apenas vivo através delas? Como me sinto ao ser visto pelo que não vejo? Quem será capaz de tocar este corpo cada vez menos presente? Teria eu virado um adorno da minha própria representação? Abro lacunas para este pensar, por toda via sempre intermediado por algo. Flusser me inquieta, enquanto fala dessa coisa do “Mundo codificado”, onde uma imagem gera outra, num ato infinito de representações que se formam, por meio de reflexos que se sucedem. Insisto: O que não há em mim que precisa ser captado por meio da imagem?

Agamben: “Diria que é preciso redesenhar desde o início o mapa do espaço em que a modernidade situou o sujeito e as suas faculdades. Artista ou poeta não é quem tem a potência ou a faculdade de criar e que, um belo dia, por meio de um ato de vontade ou obedecendo uma injunção divina, decide, como o deus dos teólogos, não se sabe como e por quê, executar algo. Assim como o poeta e o pintor, também o carpinteiro, o sapateiro, o flautista, enfim, todo homem, não são os titulares transcendentes de uma capacidade de agir ou de produzir obras. Ao contrário, são viventes que no uso, e apenas no uso, de seus membros – como do mundo que os circunda – fazem experiência de si e constituem-se como formas-de-vida.”

Eis que me conforto por hora, em apenas viver na amplitude do termo, porém, não prometo deixar de questionar toda e qualquer imagem que cruzar meu olhar, como algo que existe em mim para um determinado fim.

"Dancers", por David Talley

“Dancers”, por David Talley

 


 
Juliana Polippo produtora multimídia, especialista em Discurso Fotográfico. Atualmente aluna especial da disciplina de Imagem e Consumo no Programa de Mestrado em Comunicação pela Universidade Estadual de Londrina. Idealizadora do canal de vendas de arte independente Polippo Art Shop.

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