
A história da fotografia, além de ser marcada por avanços e conquistas tecnológicas, é evidentemente marcada por brigas. A arte que nasceu estremecendo as estruturas da pintura sustenta sua aura briguenta ao longo dos séculos e divide, desde então, seus seguidores entre os mais diferentes e fervorosos debates. Já houve quem afirmasse que fotógrafos não eram artistas ou que a verdadeira fotografia só poderia ser clicada com uma Leica. Mais tarde, o debate ganhou a voz daqueles que eram adeptos da pureza do filme e duvidavam das inovações do mundo digital e, por muito tempo, a briga (daqueles que insistiam em brigar) se sustentou no dilema Canon X Nikon ou ainda puristas X manipuladores.
Atualmente, com a popularização das câmeras (sejam elas digitais ou até mesmo as analógicas cada vez mais resgatadas) a discussão mudou de figura. “Os filtros do seu Instagram não fazem de você um fotógrafo” é a bandeira que muita gente vem levantando nos últimos tempos, mas o que eu tenho notado é que esta facilidade de fazer fotografia bonita, proporcionada por este e outros aplicativos do gênero, tem despertado em muitos uma vontade de se aprimorar cada vez mais nesta arte ou de, pelo menos, saber como continuar de alguma forma fazendo fotos bonitas.
Atendendo a esta demanda, diversas escolas (e até mesmo os próprios fotógrafos) tem disponibilizado incontáveis cursos no Brasil sobre os mais variados, e por vezes até bizarros, temas. O resultado disso, tema para mais um round neste nosso ringue fotográfico, é o desconforto de muitos frente a uma multiplicação desenfreada de novos fotógrafos ou novos ministrantes de workshops de fotografia.
Há quem ainda esteja defendendo com unhas e dentes alguma destas causas, mas gostaria de convidar a todos — independente do equipamento que você veste — para o seguinte debate: dá mesmo para aprender ou ensinar fotografia? E aqui minha pergunta não diz respeito a conhecer as funções e limites da sua câmera fotográfica ou de seus acessórios de iluminação, pois uma vez que a fotografia afasta-se do hobby para ser definida como profissão é igualmente importante para o fotógrafo ou qualquer outro profissional ter domínio sobre seu material de trabalho.

A Internet e sua vasta biblioteca nos garante acesso instantâneo a qualquer material fotográfico produzido de ponta a ponta do globo e do calendário e basta uma passeada por alguma galeria virtual para encontrarmos conteúdo que nos surpreenda positiva ou negativamente. Nesta busca, não é raro encontrarmos jovens talentos que, mesmo com pouquíssimos recursos técnicos, conseguem transmitir em suas fotografias mensagens com fortíssimos valores emocionais e conceituais; enquanto outros exibem em seus portfolios um domínio invejável de iluminação e qualidade em imagens que pecam em composição, bom gosto ou, até mesmo, enquadramento.
Não preciso falar que são inúmeros os nomes que conseguem (sorte a nossa) conciliar ambas as qualidades, assim como não preciso esclarecer que não é toda imagem deve contar uma história. Mas o que me preocupa é como ainda parece frequente a supervalorização de muitos por um instrumento milionário que continua produzindo imagens carentes de qualidade. Dá mesmo para ensinar a fotografia que se constrói para além do equipamento fotográfico? Inspiração, transpiração, seleção, exclusão e a reflexão sobre um instante que pode parecer decisivo apenas para você, são conceitos que podem até soar como uma boa pauta para um novo workshop, mas seriam estes tópicos ensináveis?
“Com o olho que está fechado, olha-se para dentro, e com o outro, olha-se para fora” já dizia Cartier-Bresson, professor de fotografia dos tempos que vieram e dos tempos que virão. O que você enxerga quando olha para dentro? Quão recheada está a sua bagagem de inspirações? O que você encontra ao revirá-las e decidir o que você quer incluir ou excluir enquanto olha pelo seu visor? E caso você nunca tenha pensado em nada disso agradeça-me depois por este empurrãozinho… ou vai querer começar mais uma briga fotográfica?
César Ovalle
Jorge Quintão
As coisas pelas quais você se apaixona, ou que irritam e comovem você são parte da sua visão única. É sobre o que você — um ser único entre bilhões — acha belo, feio, certo, errado ou harmonioso neste mundo.
A visão pode ser esquiva. Podemos nem sempre ter uma reação consciente imediata do mundo ao nosso redor, podemos não compreender nossos sentimentos em relação à história diante de nós. É nessas horas que a câmera se torna mais que um meio para registrar nossa visão; ela se torna um meio para ajudar a esclarecê-la. O ato de olhar através do visor, de excluir outros ângulos e elementos ou de trazer caos à ordem, pode trazer sua visão a tona.
A visão em si, como nossa visão ocular, pode ser negligenciada e permitir que se degenere; ou pode ser afiada, aperfeiçoada com mais clareza. Trata-se de uma relação simbiótica — não com a tecnologia da câmera, mas com o enquadramento, o qual apesar de todas as mudanças tecnológicas pela qual a fotografia passou, permanece constante. Nossa visão geralmente cresce para acompanhar nossa habilidade. Na medida em que ganhamos novas ferramentas e habilidades com as quais melhor expressamos nossa visão — de forma mais profunda e completa — nossa visão também encontra mais espaço para crescer de forma mais profunda e completa. Quanto mais nos engajamos com o mundo e examinamos nossos próprios pensamentos e sentimentos sobre ele, mais clara se torna a nossa visão.
Quanto mais clara nossa visão se torna, mais capazes somos de encontrar meios de expressá-la por meio da escolha de lentes, exposição, composição ou salas escuras digitais.
David duChemin, em A foto em foco, uma jornada na visão fotográfica.
"Taj Mahal" © Nathan Jones
"Taj Mahal" © David duChemin
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