Inspiração é bicho fugitivo da mesma forma que acomodação é bicho pegajoso. Quantas vezes você já se deparou com aquela sensação de “eu sei, preciso e quero criar, mas fazer o quê?” e é nessa hora que sua inspiração insiste em não reluzir e seu olhar insiste em permanecer cego às possibilidades que lhe cercam.
“Parece decididamente anormal viajar por prazer sem levar uma câmera” já nos disse Susan Sontag em seu livro “Sobre Fotografia” e duvido que exista alguém para discordar disso, não é mesmo? Por mais doloroso que pareça este clichê, a câmera fotográfica te ajuda a eternizar o momento e registrar o acontecimento em uma prova incontestável para parentes e amigos desta e das próximas gerações. Parece muito fácil fotografar ao ser bombardeado pelas belezas, sensações ou emoções de uma nova paisagem, mas você algum dia já parou para reparar que a paisagem que lhe cerca (seja ela onde quer que você esteja) também pode estar tentando lhe atingir dia após dia e você, dono de olhos acomodados e acostumados, simplesmente não repara e não sente mais?

Observar como se cruzam as linhas daquela casa amarela da esquina de cima do seu trabalho pode ser uma boa forma de estimular a sua percepção, sensibilidade e criatividade. É verdade que as ruas do seu bairro, o trânsito apressado que corre por você e o cachorro que dorme preguicento na porta da padaria já serviram de assunto para a poesia de outrora, escrita em preto e branco por Cartier-Bresson e Vivian Maier, mas continuarão existindo para que você e outros poetas das imagens façam deles registros eternos.
Abra seus olhos, seja um visitante em sua própria paisagem, contemple. Assista como as diferentes formas, texturas, cores e figuras se arranjam caoticamente pelos caminhos que você passa. Faça fotografias mentais enquadrando o que seus olhos enxergam enquanto você espera no semáforo fechado e a partir destes exercícios declare semáforo aberto para sua inspiração, sua criatividade e o aperfeiçoamento do seu olhar.
Saídas fotográficas se tornam cada vez mais populares entre os apaixonados pela fotografia e diversos são os cursos no Rio de Janeiro e em outras capitais do país que tem reunido turmas, emprestado câmeras e partido para as ruas visando não apenas a produção de fotografias mais interessantes, mas a rica troca de experiências que acontece em situações como esta. Se unir a um foto clube, reunir uma turma de amigos ou recrutar pessoas pelas redes sociais e promover um passeio fotográfico com destino a um dos pontos turísticos (que você talvez nunca explorou devidamente) da sua cidade são também alternativas interessantíssimas para cutucar a sua adormecida inspiração-bicho-preguiça e descobrir que no umbigo da sua cidade existe uma valiosa mina de fotografias a serem clicadas.
Abra seus olhos.
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