Últimas Postagens

O Ensaio ‘Pré Wedding’ como fenômeno imagético da sociedade atual

Foto: Twiggy Tu

Foto: Twiggy Tu

O ensaio “pré wedding” é uma inegável moda fotográfica e será analisada neste artigo sob a ótica do filósofo Vilém Flusser. A linguagem narrativa de conto é utilizada na tentativa de codificar o momento como um fenômeno imagético da sociedade atual. A superexposição de tais casais as imagens, serão levadas em consideração, visto que as superfícies gráficas fazem parte dessa elaboração, no momento em que se fundem aos conceitos de ensaio fotográfico na era da tecnologia.

Na última quinta-feira, estava no Jardim Botânico da cidade colocando algumas leituras em dia e comecei a perceber uma movimentação fotográfica. Ao avistar um casal jovem acompanhados de uma equipe de foto e filmagem, com malas e balões vermelhos de coração, minhas antenas discursivas já ficaram atentas, decodifiquei a cena: ensaio pré wedding à vista!

Sem dar muita importância, resolvi apenas seguir meu caminho e ir embora do parque, mas no trajeto de saída pude contar mais quatros grupos de ensaios descritos exatamente como o primeiro. Tais cenas repetidas me fizeram repensar tudo que sabia sobre fotografar e cruzar as informações da leitura de “O mundo codificado”, de Flusser em determinadas suposições.

No percurso, questionava o nome “pré wedding”, enquanto analisava o episódio dos casais. Na verdade, queria entender se estariam todos juntos numa espécie de caravana da empresa de ensaio de casamento. Tratavam de distribuírem-se entre equipes diferentes ou era apenas uma coincidência do dia ensolarado que propiciava a linguagem de ensaios a céu aberto? Além disso, especulava se esse disseminado conceito teria transformado os jardins da cidade em verdadeiros estúdios fotográficos?

Num ato rápido, passei a me atentar aos casais e as suas possíveis percepções sobre o clichê das “exclusivas experiências”. Será que não os incomoda a exagerada semelhança com os demais ou eles estariam ali exatamente a reproduzir-se como os referenciados nos canais de comunicação da atualidade? Por último, passei aos fotógrafos e videomakers. Será que teriam qualquer bochecha rosada ao observar por está ótica a sua falta de criatividade ou pensariam eles apenas em multiplicar esta fórmula do ensaio em questão, a lucrar cada vez mais com este fenômeno fotográfico do amor?

Foto: CreativeSoul Photography

Foto: CreativeSoul Photography

Eu e essas questões passamos a cogitar o ensaio “pré wedding” como um fenômeno e/ou vírus em forma de “código imagético” – conceito este descrito por Flusser como a própria comunicação humana. O mesmo sugere ainda que nós fazemos parte deste mundo codificado, em grande parte porque criamos e replicamos algoritmos referentes, através de superfícies imagéticas. Por isso, afundei-me neste contexto ao pensar na interação da natureza, do homem, do amor e da fotografia, como parte de um universo explicado pela fenomenologia e seus estudos da essência das coisas.

Passei a considerar este cenário e seus personagens como o recorte social significativo na elaboração do papel da fotografia atual. Segui, então, incitando hipóteses de que tais casais se reproduziam em ensaios, como tentativa de superar a sua insignificante existência passível de morte, através da sua representação figurada na companhia do ser amado (Outro).

Os fotógrafos, por sua vez entraram nesta cena como técnicos das ações (de)codificadoras das ferramentas envolvidas nesta construção. Os cálculos matemáticos de luz, ângulo e perspectiva resolvidos pelos equipamentos, precisavam de operadores. Toda via a fotografia adequada a síntese subjetiva dos códigos passou a ser necessariamente imaginada como significado aos significantes.

No aspecto social do fenômeno, o desejo dos sujeitos de se eternizarem, através do amor, acabou sendo exposto como mero produto embalado de “pré wedding”. De modo que estes “ensaios românticos” captados pela fotografia, somente marcaram a vitória na caça destes por completar-se de alguma metade faltante. O cenário estético pouco importa na verdade, a vida contemporânea que quase perde seu aspecto natural, dissimula indivíduos antes solitários, como verdadeiros apaixonados pela companhia do Outro.

Pois bem, poderíamos ter simplificado todo este contexto ao dizer que grande parte desta sociedade está aficionada pela publicação. Entretanto, seria reduzir esta idolatria do amor com direito a balões vermelhos aos acasos das redes sociais, o que é em partes verdade. Porém, concluir que tudo isso é mais que um fenômeno da relação entre a natureza do homem, a comunicação atual e a imagem, soa simplista mas ao menos não nega as raízes espetaculosas da visão fotográfica.

Foto: Steve Hallman

Foto: Steve Hallman

 


Juliana Polippo produtora multimídia, especialista em Discurso Fotográfico. Atualmente aluna especial da disciplina de Imagem e Consumo no Programa de Mestrado em Comunicação pela Universidade Estadual de Londrina. Idealizadora do canal de vendas de arte independente Polippo Art Shop.

 

Deixe seu comentário

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado. Required fields are marked *

*