Últimas Postagens

Quaisquer fotógrafo é artista?

Autorretrato de Marcel Duchamp

Autorretrato de Marcel Duchamp

O fotógrafo meramente encarado como um ser técnico, não necessariamente dotado de qualquer arte inflama em mim. Por isso, hoje trago uma reflexão acerca do ofício da escrita da luz e seus processos. A seguir, atravesso o prisma de que grandes verdades precisam ser tidas por outros.

O pensamento do homem que precisa se desconstruir, é a porta de chegada do livro “Pequeno Manual de procedimentos” de César Aira, onde ele diz que antes de mais nada é preciso abandonar-se. Permitir-se ser outro, num ato infinito de abandonos que abrirão margem para o desconhecido.

Além de que, chama atenção para a necessidade de se entender o mistério presente no ser intimo, como sendo parte do repertório dos grandes artistas do século XX. Aliás, foram estes os contestadores dos procedimentos, os quais não se contentaram em servir como operários de suas próprias obras.

Ao ver Duchamp citado como o artista mais representativo do século, temos o plano de fundo da análise histórica dos processos da arte contemporânea. O vanguardista do ready-made, rompe com o fazer tradicional das obras ao se utilizar da estratégia da arte conceitual.

Mas afinal, pra que precisamos das obras? Esta questão chave permeia todo o texto desenhado pelo escritor, que busca por meio da literatura explicitar o seu fazer artístico. Numa tal constelação bibliográfica, apresentada pelo próprio autor como sendo uma forma de cifra autentica.

A narrativa sobre a utilidade da arte, se mostra como um diálogo travado na caixa-preta da sua privacidade. Pois bem, a reconstituição do conto acerca do funcionamento das coisas, se faz necessário para contextualizar esta ideia. O exemplo do carro não por acaso, nos leva aos campos imagéticos da vivencia dos indivíduos, que antigamente os desmontavam e montavam, apenas pelo simples exercício de querer saber como as coisas funcionavam em seus interiores.

Hoje, o desinteresse pelo que se passa dentro das caixas-pretas utilizadas no dia-a- dia, não assusta a ninguém, porém indicia o esgotamento lógico da inteligência social. Aliás, por via deste efeito a arte se torna a única prática e experimentação da velha inteligência, que se empenha em saber como funciona o mundo. Numa dinâmica, que pretende desdobrar-se em suas especificidades.

Ansel Adams

Ansel Adams

Helmut Newton

Helmut Newton

Conclui-se então, que a arte tem uma função política além de tudo, onde o artista tem um papel social único, diante do cidadão comum, visto que quando não é financiado pelo poder, consegue se utilizar da inteligência que está se atrofiando no resto na sociedade como uma matéria sofisticada e atual que deve ser reconstruída totalmente.

Diante desta revisão das composições artísticos do século XXI, poderíamos considerar os fotógrafos artistas, apenas por seu interesse no funcionamento da caixa-preta atual (câmera fotográfica)? Ou ainda, seria preciso nomeá-los como “astutos operários” do sistema da imagem contemporânea? Aliás, o comércio da arte por si, deveria ser encarado como acordo entre poder e mercado? Estes então, como ousam se classificar como artistas, quando no fundo apenas integram a bancada comum da cidadania?

Admitindo-se tais questionamentos, a preciosidade dos abandonos fazem sentido nos diversos infinitos da imagem. A arte então, sobrevive na fotografia a cargo do desconhecido.

 


Juliana Polippo produtora multimídia, especialista em Discurso Fotográfico. Atualmente aluna especial da disciplina de Imagem e Consumo no Programa de Mestrado em Comunicação pela Universidade Estadual de Londrina. Idealizadora do canal de vendas de arte independente Polippo Art Shop.

Deixe seu comentário

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado. Required fields are marked *

*